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Lupicínio Rodrigues

Atualizado: 24 de jul. de 2023


Lupicínio nasceu em Porto Alegre, no dia 16 de setembro de 1914, às 21h30. Ele foi o quarto filho de Francisco Rodrigues e Abigail Oliveira, que tiveram um total de 21 filhos(as), mas apenas 13 sobreviveram. Ainda criança, Lupicínio já demonstrava interesse pela música – e pelas gurias –, deixando a escola em segundo plano.


Em 1921, frequentou o Externato Dom Sebastião para crianças carentes. Nessa época Lupi ajudava a família com vários bicos, como baleiro, guri de recados e vendedor de pastéis. Em 1927, aos 13 anos, Lupicínio era visto circulando na boemia da Ilhota, Areal da Baronesa e Cidade Baixa, redutos da comunidade negra de Porto Alegre. Aos 14 anos, ele compôs para o bloco Moleza a sua primeira música: uma marchinha nunca gravada intitulada Carnaval.


No início dos anos de 1930, aos 16 anos, Lupicínio é alistado no exército por meio de uma manobra que alterou a sua certidão de nascimento. Assim, foi incorporado como soldado Rodrigues no 7º Regimento de Infantaria, chegando a ser padioleiro na Revolução de 1932. Nessa época, Lupicínio ocupava o posto de cabo. Sua vida militar foi marcada por diversos atos de indisciplina. Chegou a compor um samba criticando a ração recebida pelos soldados, que era sempre charque com farinha. O samba agradou os soldados, mas não caiu no gosto dos comandantes. No ano de 1934, se muda para Santa Maria e, nesse período, compõe Zé Ponte, Felicidade entre outras composições. Nesta cidade, conhece a menina Cerenita, que mais tarde viria a ser sua esposa, na época namorava Inah. Após o curso preparatório de sargentos, Lupicínio deu baixa do quartel, retornando para os doces braços da boemia.


O final dos anos de 1930 foram muito movimentados no que diz respeito a sua carreira musical. Nessa época, trabalhou na faculdade de direito da UFRGS como bedel até 1947. Chegou a criar uma escola de samba que teve pouca duração, participou de concursos musicais e transmissões de eventos festivos. Em 1938, no entanto, compôs um dos seus maiores sucessos, o samba “Se Acaso Você Chegasse”, gravado por diversos artistas como: Gilberto Gil, Francisco Alves, Linda Batista, Gal Costa, entre outros. A música recebeu uma versão instrumental em 1944, para o filme Dançarina Loura (traduzido de Lady, Let´s Dance).


No final dos anos de 1940, Lupi abriu uma churrascaria: Galpão do Lupi. Esse seria o primeiro de uma série de estabelecimentos abertos pelo artista. A maioria teve vida curta, mas fica o registro da veia empreendedora. Esses locais eram como uma casa para acolher os amigos de Lupicínio, espaços de trocas e produção musical.


Em 1948, Francisco Alves grava a canção “Nervos de Aço”. Este momento marca uma fase de grande reconhecimento. Em 1951, a música “Vingança” é um estrondoso sucesso nacional. A década de 1950 para Lupicínio é muito positiva na história de sua carreira. Nesse período ele transita entre os grandes centros nacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo, se apresenta em várias casas de show e participa de programas na Rádio Record. Em 1952, grava pelo selo Copacabana o álbum Roteiro de um Boêmio. No mesmo ano grava quatro canções em dois discos: “Tola”, “O Morro de Luto”, “Pregador de Bolinha” e “Já Sofri”. Em 1953, grava o “Hino do Grêmio”, inspirado em uma greve de ônibus.


A discografia de Lupicínio: Francisco Egydio, Vive os Sucessos de Lupicínio Rodrigues - LP 1963 (Odeon); Jamelão - Interpreta Lupicínio Rodrigues - LP 1972 (Continental); Lupicínio Rodrigues - Gravações Originais - LP 1974 (Discos Copacabana); Nelson Coelho de Castro, Gelson Oliveira, Bebeto Alves, Paulo Gaiger, Neusa Ávila, Pery Sousa, Nanci Araújo - Coompor Canta Lupi - LP 1989; Vários Interpretes Revivendo 4 CDs - CD (Cedar Revivendo); e Thedy Corrêa Lupicínio - CD 2005 (Orbe). Uma biografia musical sobre Lupicínio, de autoria de Arthur de Faria, foi lançada recentemente – uma oportunidade para conhecer mais sobre a sua trajetória como grande compositor que foi.


Falando em Grêmio, Lupicínio era amante do futebol, principalmente dos times da liga da Canela Preta. Times estes que eram compostos majoritariamente por pessoas de cor (como chamavam os negros na época) que viviam nas áreas consideradas como território negro como a Ilhota, local de origem de Lupi. O motivo de Lupicínio ter se tornado gremista está no fato da recusa do Sport Club Internacional em admitir o time Rio Grandense na liga, essa atitude do Inter fez com que aqueles participantes do time preterido se tornassem torcedores fervorosos do tricolor porto-alegrense, incluindo seu Francisco, pai de Lupi. Esse evento, nas palavras de Lupicínio, deu origem à liga da Canela Preta. Em 21 de junho de 1953, uma greve dos transportes públicos dificultou o deslocamento dos torcedores para o estádio para assistirem o certame entre Grêmio e Cruzeiro-POA. O jeito foi ir a pé ao estádio, que ficava localizado onde hoje é o Parque Moinhos de Vento. E foi assim que surgiu o primeiro verso do hino Grêmio “Até a pé nós iremos”.


Em 1966, um incidente marcou a sua trajetória na cidade: Lupicínio foi vítima de racismo na Lancheria e Rostiere Olé, localizada na rua dos Andradas. O gerente do estabelecimento disse a Lupi que a lancheria seria privativa da raça branca. O caso ganhou repercussão na imprensa, os responsáveis do estabelecimento foram enquadrados na Lei Afonso Arinos. Houve grande manifestação da comunidade negra de Porto Alegre. Os manifestantes ocuparam o estabelecimento onde havia ocorrido o episódio e foram atendidos sem problemas.


Outra faceta que é pouco explorada é o Lupicínio na vida política. O pesquisador Marcelo Campos nos informa que:


Em 1959, Lupicínio aceitou um convite para concorrer pelo Partido Republicano (PR), uma sigla pequena e que, no Rio Grande do Sul, também servia de refúgio para comunistas do PCB. A plataforma política do compositor era meio difusa, mesclando temas como exploração pelo capital estrangeiro, a alta do custo de vida e a preocupação social com os trabalhadores da noite, numa espécie de "nacionalismo boêmio". Mas a população não comprou a ideia, e o resultado foram míseros 396 votos, que não davam nem para a saída. Lupi nunca mais concorreu a um cargo eletivo.


Essa sua participação na política deve ser levada em consideração uma vez que outras personalidades negras relacionadas ao samba, como Grande Otelo (amigo de Lupi) e Paulo da Portela, de alguma maneira, dialogam com o Partidão. O que revela a inserção de personalidades negras nas discussões sobre o socialismo.


Lupicínio Rodrigues ficou conhecido como o compositor da dor de cotovelo. Foi reconhecido dentro e fora do Rio Grande do Sul. Inúmeros intérpretes tiveram a honra de emprestar a voz às mais belas canções do morador ilustre da ilhota. Foram mais de vinte e cinco sucessos. Mesmo sendo um artista conhecido, Lupi não escapou a malha fina do racismo. Foi um defensor da comunidade negra. Para além do artista, conhecemos também o espírito combativo de Ogum nesse enorme compositor. No dia 21 de agosto de 1974, depois de uma vida intensa e interessante, Lupi partiu, nos deixando saudades que matamos quando escutamos suas composições. Porque tudo o que Lupi pedia a esses moços é que acreditassem nele. Assim, que as novas gerações desfrutem das palavras em forma de poema que o nosso querido Lupicínio exalou como aroma de uma roseira.



Referências


CAMPOS, Marcello. Almanaque do Lupi. Porto Alegre: Editora da Cidade: Letra&Vida, 2015.


GERBASE, Carlos. Lupi: Pode entrar que a casa é tua. Porto Alegre: Farol Santander Porto Alegre, 2023.


GOULART, Mario. Lupicínio Rodrigues. Porto Alegre: Ed. Tchê, 1984.


LUPICÍNIO Rodrigues. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. San Francisco, CA: Wikipedia Foundation, 29 mar. 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lupic%C3%ADnio_Rodrigues. Acesso em: 6 maio 2023.


MARCELO Campos fala sobre a biografia de Lupicínio Rodrigues. In: Gaúcha ZH. [S. l.], 23 mar. 2015. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2015/03/marcelo-campos-fala-sobre-a-biografia-de-lupicinio-rodrigues-4723656.html. Acesso em: 6 maio 2023.


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