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O Jornal O Exemplo

Atualizado: 10 de jul. de 2023


O jornal O Exemplo (1892 - 1930), como outros, colaborou para uma memória distinta sobre a negritude brasileira. O periódico teve algumas interrupções e retornos, que marcam suas 3 fases. O periódico destacou-se pela construção de narrativas e múltiplas vivências de mundo do povo negro em um território de lutas éticas marcado por diversos fatos significativos para sua comunidade, valorizando e contribuindo com ela, bem como mostrando as discordância na sociedade vigente no período.


No momento que se lê o jornal, as memórias parecem vivas e se encontram justamente nos acontecimentos que demonstram a necessidade de cuidados para a preservação das memórias históricas e culturais dos negros. É possível considerar que O Exemplo, assim como outros periódicos negros, foram recursos que contribuíram na construção de uma memória sobre o negro no Brasil, a partir de uma relação, ou seja, conexão de proximidade, não só em relação ao sistema escravocrata, mas sim de luta e resistência em outros campos.


O Exemplo foi fundado após reuniões diárias no Salão Calisto, de Calisto Felizardo de Araújo e filhos. Seu escritório foi usado durante a primeira fase (1892-1897). O Salão Calisto localizava-se na rua dos Andradas, número 247, no centro da cidade de Porto Alegre, feito por e para pessoas negras.


O editor Arthur de Andrade descreveu O Exemplo como um jornal “literário, crítico e noticioso”. Entre os membros estavam Arthur Ferreira de Andrade, Marcílio Francisco da Costa Freitas, Arthur Pinto Gama, Alfredo Cândido de Souza, Sérgio Aurélio de Bittencourt, Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior, Florêncio Calisto Felizardo da Silva e Esperidião Calisto Felizardo da Silva, que completa a lista da primeira fase do periódico.


A primeira fase do jornal encerrou-se no dia 21 de janeiro de 1897. Ele voltou a funcionar em 5 de outubro de 1902, retomado pelo fundador Esperidião Calisto e pelos novos membros Tácito Pires e Vital Batista, os dois do movimento operário da capital. Esta fase estendeu-se até 1911, com alguns intervalos.


A última fase foi entre 1916 e 1930. O jornal teve uma movimentação feminina, algo que acontecia em poucas associações negras porto-alegrenses. A publicação teve duas colaboradoras bem ativas: Sophia Ferreira Chaves e Carmem D’Aguiar, ampliando o campo de possibilidade de entendimento sobre as relações e inquietações das mulheres nos demais projetos coletivos além do jornal O Exemplo.


O periódico nasceu nesse campo, no combate aos preconceitos que atingiam a população negra. Ademais, havia também uma disputada pela narrativa histórica, indo ao encontro a uma das palestras que se tornou um livro da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, O perigo da história única (2019), e, também, do já descrito pela historiadora Beatriz Nascimento, que destacou em seu livro Eu sou Atlântica (2006) que a história da raça negra ainda está por fazer, dentro de uma história do Brasil ainda a ser feita. Beatriz propunha, como projeto, uma interpretação histórica do Brasil que colocasse no centro da análise a racialização das relações sociais e históricas.


Um dos fundadores de O Exemplo, Marcílio Francisco da Costa Freitas, destaca um trecho no jornal nessa mesma linha das autoras referidas comentando que “não haveria o 15 de novembro se não fosse o 13 de maio.” Isso nada mais é que o protagonismo da população negra sobre a história do Brasil.


Na segunda fase, Tácito Pires, um dos membros do jornal O Exemplo, e um dos fundadores, Esperidião Calisto, buscaram criar uma escola noturna. Num dos exemplares do periódico da época vinha um anúncio do “Ateneu Popular”. Ali estavam indicadas as ideias e os motivos que estimularam a criação de escola noturna desse tipo e para quem ela era destinada. Eles nomearam de Escola Noturna O Exemplo, com a intenção de proporcionar um melhor “destino social” às crianças, e levantar intelectual e moralmente a classe.


Em 1908 foi a vez da proposta da criação do Asilo Treze de Maio para acolher crianças abandonadas, sobretudo as “de cor preta e parda” que não eram aceitas nas instituições que cuidavam desse serviço. Mas tanto a escola quanto o asilo não tiveram continuidade em razão da escassez de recursos materiais das coletividades envolvidas. Por isso e também pelo posicionamento negligente do Estado diante dessas demandas.


A última fase foi a da ideia de voltar esses estabelecimentos de ensino para as crianças vulneráveis, buscando assim cobrar que as instituições teriam que ensiná-las de modo a garantir o seu aprendizado. O jornal era destinado para a população negra. Os membros do grupo que o fundou era de pessoas negras letradas e, diante de todas as discriminação que eles, mesmo letrados, sofriam junto à população negra sul do país, sua luta era por direito à educação, cidadania e contra o preconceito de cor (racismo).



Referências


ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SOUSA, Ricardo Costa. Redes de sociabilidades no jornal o exemplo (1892-1905). In: Anais do III Seminário de Educação, Conhecimento e Processos Educativos: educação e formação humana, 2019. Criciúma: Ed. UNESC, 2019.


MÜLLER, Liane S. As contas do meu rosário são balas de artilharia: irmandade, jornal e associações negras em Porto Alegre (1889-1920). 1999. Dissertação (Mestrado em História) – PUCRS, Porto Alegre, 1999.

PERUSSATTO, Melina. Arautos da liberdade: educação, trabalho e cidadania no pós abolição a partir do jornal O Exemplo de Porto Alegre (1892-1911). 2018. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

PINTO, Ana Flávia Magalhães. A imprensa negra no Brasil do século XIX. São Paulo: Selo Negro, 2010.


RATTS, Alex. Eu sou atlântica. Sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.


ZUBARAN, Maria Angélica. O Acervo do Jornal O Exemplo (1892-1930): patrimônio cultural afro-brasileiro. Revista Memória em Rede, Pelotas, v. 7, n. 12, 2015.



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