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Colônia Africana

Atualizado: 13 de set. de 2023




Figura 1: Mapa da Colônia Africana, Porto Alegre/RS – 1888

Fonte: Elaboração de Daniele Machado Vieira sobre Mapa de Porto Alegre/RS, 1888 (IHGRGS, 2005)


Figura 2: Colônia Africana, Porto Alegre/RS – início Séc. XX

Fonte: Acervo Biblioteca Digital Luso Brasileira



A Colônia Africana foi um arraial caracterizado pela grande presença de famílias negras, existente na cidade de Porto Alegre por, no mínimo, cinco décadas: de meados de 1880 até, pelo menos, os anos 1940/1950. Localizada no entorno da área central, na região que hoje corresponde ao bairro Rio Branco, a Colônia Africana tem sua ocupação inicial relacionada a negros libertos que por ali se estabeleceram no período próximo à Abolição da Escravidão (1888).


Seu Jayme Moreira da Silva (1916-2014), morador da região durante toda a vida, relata que “a Colônia Africana era povoada por escravos libertos e pelos seus descendentes. Filhos, netos e bisnetos e assim por diante. Mais alemães e italianos que ali se estabeleceram” (2005, p. 19). A hipótese de ocupação inicial por negros libertos é fortalecida pelo fato de que em 1884 abolicionistas comemorarem a emancipação de 134 escravizados no 3º Distrito, região da cidade na qual vai se localizar a Colônia Africana (ROSA, 2019, p. 150). Relatos apontam que negros libertos teriam se instalado nas bordas dos casarões da Avenida Independência e chácaras existentes nas imediações do atual bairro Rio Branco. Nas décadas de 1910/1920 começam a alojar-se na área imigrantes europeus de diversas nacionalidades: alemães, italianos, espanhóis, portugueses, judeus, russos, austríacos (ROSA, 2019).


Em 1888, simbolicamente o ano da Abolição da Escravidão, a área da Colônia Africana aparece pela primeira vez em um mapa da cidade, já com cinco ruas traçadas. Um dos registros mais antigos que se tem da área – com esta denominação – é um anúncio de 29 de janeiro de 1894, no qual são oferecidos para venda terrenos “bem localizados” em diversas áreas da cidade:


“[...] Tem a venda terrenos bem localizados, sito as ruas Independência, Silveira Martins, Santo Antônio, Campo do Bom Fim, Garibaldi, Venezianos, Concórdia e na Colônia Africana às ruas Ramiro Barcelos, Castro Alves e Venâncio Ayres” [atual Rua Vasco da Gama] (A FEDERAÇÃO, p. 3, grifo meu).


Esse anúncio é um marcador espacial e temporal da Colônia Africana, pois além de apontar algumas das ruas que a compunham, também confirma que na década de 1890 a região já era conhecida por esse nome. Embora não tenha sido oficialmente reconhecida como uma área da cidade, são feitas menções à Colônia Africana na condição de arraial (o equivalente a um bairro) em pelo menos dois documentos do poder público municipal nos anos de 1896 e 1898, referindo, respectivamente, à correção de ruas com nome em duplicidade e à taxação de impostos na zona suburbana (KERSTING, 1998, p. 105).


No início do século XX, a Colônia Africana se expandiu. Nos mapas de 1906 e 1916 ela já aparece com muitas outras ruas traçadas. De acordo com as fontes e os antigos moradores, o arraial iniciaria na Rua Ramiro Barcelos estendendo-se até os altos do Morro do IPA, chegando a atingir a Av. Maria (atual Av. Cel. Lucas de Oliveira) no sentido oeste-leste. No sentido norte-sul, da Rua Castro Alves até a Av. Protásio Alves, tendo como principais transversais a Rua Esperança (atual Rua Miguel Tostes) e a Rua Mariante, que dividia a Colônia Africana em uma parte baixa, a oeste, e uma parte alta a leste. Ao longo de algumas décadas, até ao menos a década de 1920, a área da Colônia Africana era o limite de uma parte da cidade, com suas ruas acabando em uma ampla área de vegetação (indicada por arbustos nos mapas de 1888 e 1906) ou tendo como continuidade um grande espaço em branco, indicando um vazio urbano, como no Mapa de 1916.


Quanto à denominação, acredita-se que o termo “Colônia” esteja relacionado ao seu contexto inicial de área de características semirrurais, com quintais para criação de animais (cabras, galinhas, etc) e pequenas hortas (ROSA, 2019, p. 148-149). Já o adjetivo “Africana", sem dúvida faz menção aos moradores do lugar, africanos e seus descendentes, como os constantes nos Livros de Registros da Santa Casa no final do século XIX levantados por Kersting (1998, p. 211). Nessa perspectiva, o termo “Colônia Africana” condiz com a ideia de uma região, inicialmente rural, habitada por negros (ROSA, 2019, p. 149). A nomeação da área como decorrente da predominância do grupo racial negro é também apontada pelo cronista Sanhudo, que se refere à área como “região que, mais habitada por pretos, foi ficando com o pitoresco e significativo nome de Colônia Africana” (1975, p. 113). Embora o arraial não tenha sido habitado exclusivamente por negros, até a primeira década do século XX esses eram os moradores majoritários, tornando-se o lugar uma extensão dos seus habitantes, inclusive na denominação daquela região da cidade.


Em 1913, a área passa a ser oficialmente denominada de bairro Rio Branco em homenagem ao Barão do Rio Branco. Contudo, parece que a nova denominação demora a emplacar, pois em um relatório da Intendência Municipal de 1918 a área é mencionada como “bairro Rio Branco (antiga Colônia Africana)” (FRANCO, 2006, p. 114). Duas décadas após, em 1940, notícias da imprensa sobre o carnaval referem-se à festa na Colônia Africana, indicando a continuidade da nomenclatura e deste antigo território negro. Narrando os cortejos do pré-carnaval, uma reportagem do jornal Correio do Povo, de 27 de janeiro de 1940, vai se referir aos “morenos” que “desceram os morros, desembocaram da Colônia Africana”. Outra notícia na Revista do Globo, em 17 de fevereiro de 1940, menciona a Colônia Africana, descrevendo um festejo no Salão do Ruy (antigo Salão Modelo), qualificando-o como “a sociedade de pretos da Rua Esperança”, reafirmando a existência de uma comunidade negra no local ainda nessa época.


Quando se fala em memórias da Colônia Africana, a Rua Esperança (atual Rua Miguel Tostes) é constantemente referida. Foi nessa rua que em 1942 nasceu a Profª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, referência nacional em educação para as relações étnico-raciais (ERER), cuja família tem residência desde o raiar do século XX. Por ali também circulavam os blocos de carnaval da área: Os Fazendeiros, Os Turunas e Os Prediletos, com os dois últimos revezando-se nos primeiros lugares dos concursos. Quando chegava a primavera, iniciavam os preparativos para o carnaval e, nas palavras de Seu Jayme Moreira da Silva, “da primavera à quaresma, a Colônia Africana era só festa”. Horacina Corrêa, grande intérprete do Bloco os Turunas, tinha sua voz ouvida de longe, levantando os moradores da Rua Esperança da cama para vê-la passar.


Ao descrever os festejos católicos da área, seu Jayme Silva (2005, p. 53) relata que a participação das famílias negras era realizada conforme o “ritual africano”. Ocorridas no Morro da Piedade (na subida da Rua Cabral), essas celebrações ao “ritual africano” eram compostas por piqueniques, música, comidas típicas, dança, desfiles e mães de santo. Mãe Chininha, mãe de santo que residia nas imediações, abria as solenidades, pedindo muito amor, respeito, cura e paz. O antigo morador também faz menção à existência de diversas casas de batuque na região, relatando que mesmo os negros adeptos do catolicismo não deixavam de frequentar “a religião tradicional africana, de origem de seus avós [...] cultuada em toda a Colônia Africana” (2005, p. 53).


Sobre o fim da Colônia Africana, sabe-se que com a valorização do espaço, a área foi se transformando. Aos poucos as famílias negras foram migrando e o local deixando de ser caracteristicamente negro.







Referências


A FEDERAÇÃO. Porto Alegre. n. 24, p. 3. 29 jan. 1894. Acervo da Hemeroteca Nacional. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=388653&pagfis=1. Acesso em: 5 nov. 2020.


CORREIO DO POVO. Porto Alegre, 27 jan. 1940.


FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 4. ed. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2006.


KERSTING, Eduardo Henrique de Oliveira. Negros e a modernidade urbana em Porto Alegre: a Colônia Africana (1890 – 1920). 1998. 221 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998.


O CARNAVAL em todos os recantos. Revista do Globo, Porto Alegre, n. 269, p. 45, 17 fev. 1940.


ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Além da invisibilidade: história social do racismo em Porto Alegre durante o pós-abolição. Porto Alegre: EST Edições, 2019.


SANHUDO, Ary Veiga. Porto Alegre: crônicas da minha cidade. Porto Alegre: Editora Movimento: Instituto Estadual do Livro, 1975. 2 v.


SILVA, Jayme Moreira da. Colônia Africana. Porto Alegre: [s. n.], 2005.


VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Belo Horizonte: ANPUR, 2021. Disponível em: https://anpur.org.br/territorios-negros-em-porto-alegre-rs-1800-1970. Acesso em: 14 dez. 2022.


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