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Igreja da Nossa Senhora do Rosário (Beco do Rosário/Rua Vig. José Inácio)

Atualizado: 25 de set. de 2023



A primeira construção desta igreja ocorreu entre 1817 e 1827, empreendida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, uma confraria de negros livres e escravizados. Foi edificada na então Rua da Bandeira, a atual rua Vigário José Inácio, construída durante as horas vagas dos trabalhadores negros, sob a orientação do tesoureiro da Irmandade, Francisco José Furtado, cujo apelido era “Chico Combuta”, tendo recebido a imagem de sua padroeira em 1827.

Apesar de contar com poucos recursos, a igreja chamava atenção pelos seus doze metros de altura e duas torres quadrangulares. Seu interior continha, além do altar-mor, outros quatro altares laterais, que abrigavam dezessete imagens, algumas valiosas, vindas de Portugal. Alegando que a igreja não comportava mais a quantidade de fiéis e ameaçava desabar, a Mitra Arquidiocesana a demoliu e em seu lugar construiu outra com estrutura pesada, pouco original e sem uma identidade com a arquitetura local.

A Irmandade do Rosário de Porto Alegre foi criada em 1786 e manteve o caráter aberto a todos os grupos étnicos. Embora a igreja católica tivesse como objetivo domesticar a população africana e seus descendentes, legitimando a escravidão, as irmandades foram importantes, proporcionando uma relativa autonomia para a prática religiosa, favorecendo a integração e a socialização entre escravizados e libertos.

A presença de brancos nas irmandades onde a maioria era negra levou a uma vivência diferenciada da relação de subordinação existente entre cativos e senhores. Nas reuniões de decisão, reuniões da Mesa, poderiam estar presentes, como mesários, um escravizado e o seu senhor, decidindo sobre assuntos comuns em igualdade, materializando uma prática de resistência contra a escravidão.

Além da sociabilidade e auxílio mútuo que a Irmandade permitia, a convivência entre os cultos africanos e portugueses foi fundamental para a preservação de elementos da religiosidade africana, que mesclados com as bases do catolicismo, foram ressignificados e adaptados para a realidade daquele período histórico. Outros atos que são vistos como resistência foram o dever de dar um funeral aos congregados, o amparo aos familiares dos irmãos pobres, a compra de alforria, servindo a própria Irmandade como modelo para outras associações negras de auxílio mútuo, mas sem o caráter religioso das irmandades.

O Beco do Rosário localizava-se onde hoje é a avenida Otávio Rocha e recebeu esta denominação após a construção da Igreja da Nossa Senhora do Rosário. Segundo pesquisadores, antes dessa construção, havia uma placa com os dizeres “24 de maio” que o identificava e, o Beco do Rosário, referia-se apenas a um segmento dessa travessa, que ficava mais próximo à igreja. Ali habitou um morador ilustre no sobrado de n.º 21, o poeta e dramaturgo Qorpo Santo, que escreveu a antológica peça “Hoje sou um, e amanhã outro”, estreada na data de 15 de maio de 1866.

Para melhor compreender, o conceito de beco relaciona-se com uma rua secundária no traçado urbano hierarquizado e tipicamente ocupado por parcelas mais pobres da população. Pesquisas acadêmicas apontam que parte significativa dos habitantes dos becos eram trabalhadores pobres e, em grande parte, nascidos ou com antepassados no continente africano. Como forma de segregação, havia a desqualificação dos negros como trabalhadores independentes, o que contribuía para a ausência de políticas de reinserção destas pessoas, acarretando sua exclusão do exercício integral da cidadania, incluindo o direito de acesso à cidade.

A rua Vigário José Inácio recebeu esta denominação em 1977. Inicialmente, chamava-se Rua do Bandeira e, em 1816, com a construção da igreja, passou a ser conhecida como rua do Rosário, mas apenas na década de 1830 o nome veio a se fixar.

A partir disso, os becos tornam-se locais de interação social estigmatizados pela moral das classes dominantes, tendo quase sempre uma conotação pejorativa e considerados como espaços urbanos subalternos. Assim, a modernização da cidade passava pela destruição e higienização desses lugares, especialmente aqueles próximos a locais de prestígio. O Beco do Rosário foi destruído em 1926, na gestão do Intendente Otávio Rocha, dando origem a uma avenida mais larga e expulsando seus habitantes daquele lugar, condenado por sua sociabilidade e por ser remanescente insalubre da cidade colonial.



Referências

ANDREIS, Suélen. O brilho da festa não cessa a dor: experiências de resistência negra na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Porto Alegre (1827-1861). 2015. (Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) – Universidade Federal do Rio Grane do Sul, Porto Alegre, 2015. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/132357. Acesso em: 9 dez. 2022.

KOEHLER, Ana Luiza Goulart. Retraçando os becos de Porto Alegre: visualizando a cidade invisível. 2015. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/139940. Acesso em: 9 dez. 2022.

FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 4. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2006.


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