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REI CONGO - Francisco Bernardo da Silva

Atualizado: 14 de jan.

Imagem meramente ilustrativa - feita por IA - por não haver registro gráfico.

Em 26 de novembro de 1829, a Câmara Municipal de Porto Alegre apreciou o requerimento de Francisco Bernardo da Silva, preto forro de Nação Congo, intitulando-se rei eleito dela, que postulava licença para ensaiar nas ruas e na igreja de Nossa Senhora do Rosário para os festejos de costume. 


O postulante deu como períodos necessários para os ensaios a festividade de Natal, que então se avizinhava, ocasião em que também era festejada a santa para a qual foi dedicada a igreja recém-construída (em 1828) pela Irmandade do Rosário. A Irmandade, em si, era mais antiga, fundada em 1786.


O aparecimento desse personagem como fonte histórica inédita é destacado pelo historiador Jovani Scherer como demonstração da prática inequívoca do candombe (danças e cânticos) e da coroação de reis e rainhas africanas como parte da realeza frequente nas congadas e cucumbis, que pode ser lido, com alguma liberdade, como inserido no universo de rituais do povo de origem banta, naquele momento majoritário na demografia da cidade.


A entronização dessa realeza em território além-África pode ser percebida como parte de um contexto de apropriação por parte da população negra de um catolicismo de concepção africana que começa no reino do Congo, na segunda metade do século XV, antes mesmo da materialização da dolorosa diáspora dessas populações para o Brasil e América Latina. 


As manifestações plasmadas nas congadas e cucumbis podem ser vistas como cimento para a identidade dos negros das várias nações, em especial dos reinos centro-africanos de cultura banta. 


Na antiga colônia portuguesa, depois Império do Brasil, tais manifestações eram permitidas, porém com filtros de várias camadas de censura para os membros das irmandades católicas, em particular, no caso de Porto Alegre, pela Irmandade do Rosário. 


“O Compromisso” – documento norteador da entidade - na capital do Rio Grande do Sul, permitia a negros e pardos formarem a mesa diretora da Irmandade. Além de tesoureiro e secretário, a mesa diretiva contava com o cargo de rei, o que assegurava o status de autoridade e notoriedade a Francisco Bernardo da Silva perante sua comunidade.


A coroação do rei congo, formatada em ritual que tem por base uma espécie de catolicismo de inspiração africana, tem origem provável, como pensa Laurentino Gomes, na conversão do rei do Congo, titulado “manicongo” - Nzinga-a-Nkuwa - no ano de 1485, quando recebe o batismo cristão mudando o nome para João I, homônimo do soberano português. 


A conversão da majestade congolesa foi a oportunidade para a existência até a atualidade nessa região da África de uma forma de catolicismo peculiar que mistura crenças e rituais de origem católica com outros de raiz local, ancestral e africana.

A prática reiterada de coroação do rei Congo e da rainha Jinga nas congadas e cucumbis pode ser aproximada da construção de uma comunidade de origem, de um modo próprio de ver o mundo e de fortalecimento identitário que irá contribuir para a criação de estratégias comunitárias de negociação no seio de uma sociedade racista, adversa e assimétrica.


Assim sendo, a aparição desse personagem, Francisco Bernardo da Silva – Rei Congo, nas atas da Câmara Municipal da primeira metade do século XIX, traz, pela força da tradição, a incontornável presença do negro na sua diversidade de nações originárias e culturas, para o centro de uma contra narrativa que busca superar a versão hegemônica de que Porto Alegre seria uma cidade essencialmente europeizada.


Referências:

  • GOMES, Laurentino. Escravidão: do primeiro de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, volume 1 – 1 ed. – Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.


  • MULLER, Liane Susan. As Contas do Meu Rosário são Balas de Artilharia. Porto Alegre: Pragmatha, 2013.


  • SCHERER, Jovani de Souza. O Candombe, Um Rei Congo e as tradições africanas em Porto Alegre, no início do século XIX. Racismo, relações de poder e história negra em Porto Alegre: séculos XIX-XX/Centro Histórico-Cultural Santa Casa; org. José Rivair Macedo, Paulo Roberto Staudt Moreira, Vera Lúcia Maciel Barroso- Porto Alegre: Evangraf: ISCMPA,2023.


Vozes e Olhares – Memórias Negras para Todos

Recurso de acessibilidade do projeto:


O Projeto Memórias Negras valoriza a inclusão e aplica medidas de acessibilidade para que seus conteúdos em vídeo possam ser apreciados por todos. Para o público surdo, são oferecidas legendas, garantindo a compreensão das falas, sons e contextos.


Para pessoas cegas, há o recurso da leitura do verbete em áudio, que descreve imagens, expressões e cenários, permitindo acompanhar a narrativa em sua plenitude.


Ao adotar essas práticas, o Projeto reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à informação, à memória e à cultura negra. Mais do que cumprir uma exigência técnica, trata-se de reconhecer a diversidade e assegurar que cada pessoa possa vivenciar e se identificar com as histórias contadas.


Texto e pesquisa

Pedro Vargas



Vozes:

Vitor Ortiz

Regius Brandão

Juliana Bittencourt


Imagens desenvolvidas por IA por falta de acervo


Trilha sonora:

Banda Kalunga



Edição de áudio, vídeo e legendagem:

Juliana Bittencourt



Projeto:

Memórias Negras em Vebetes



Realização:

Voz Cultural



Apoio:

Sindbancários



Financiamento:

PróCultura; Governo do Estado do RS, Secretaria da Cultural; Lei Paulo Gustavo; Ministério da Cultura, Governo Federal Brasil, União e Reconstrução;



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