O Ministério da Cultura e a Secretaria da Cultura do Estado do RS apresentam: Memórias Negras em Verbetes - Inventário Participativo de Referências Espaciais, Sociais e Simbólicas. A 1ª etapa do projeto foi realizada com recursos do Pró-Cultura - Edital de Patrimônio Cultural FAC/RS - Fundo de Apoio à Cultura - SEDAC/RS e a 2ª etapa do Inventário foi realizada com recursos da Lei Paulo Gustavo - Lei Complementar nº 195/2022.
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- O Negro em Preto e Branco
O livro O Negro em Preto e Branco - História fotográfica da população Negra de Porto Alegre (publicado em 2005) é de autoria, coordenação editorial e design de fotógrafa e artista visual Irene Santos, com contribuições da jornalista e militante do movimento negro porto-alegrenese Vera Daisy Barcellos e da produtora e também jornalista Sílvia Abreu nos textos e entrevistas, de Elenir Gularte Marques na pesquisa histórica, do histórico poeta e militante Oliveira Silveira, consultoria de artes gráficas de Zoravia Bettiol. na consultoria de artes gráficas e prefácio de Marilene Leal Paré. O livro contou com financiamento do Fumproarte, fundo de financiamento de projetos culturais da Prefeitura de Porto Alegre. Irene de Figueiredo Santos é uma fotógrafa portoalegrense, nascida no ano de 1947, que dedica o seu trabalho a conhecer e promover a cultura afro-brasileira, especialmente a do Sul do Brasil. É vencedora do prêmio Açorianos na categoria Literatura Especial. Formada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1971, teve seu primeiro emprego como fotógrafa na gráfica do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, trabalhando nos setor de fotolitos, onde aprofundou seus conhecimentos práticos com a fotografia e os processos de revelação. No ano de 1979, abriu seu próprio estúdio de fotografia, então, podendo dedicar-se mais a fundo em sua área de estudos: a música, a cultura e as artes cênicas afro-brasileiras. Também pode então desenvolver a escrita e produção de outros livros e projetos, incluindo a publicação “Colonos e Quilombolas – Memória fotográfica das Colônias Africanas de Porto Alegre”, edição de 2010, e o webdocumentário “Outros Carnavais – Memória do carnaval de Rua de Porto Alegre, 1930-1969”, editado em 2014. O livro conta com contribuições de outras personalidades Negras, que escreveram em seus respectivos capítulos: Guarani Santos (professor e historiador) Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Jr. (professor da PUC/RS. Jornalista. mestre em antropologia e doutor em Antropologia Social pela UFRGS) Antônio Carlos Santa Rosa (Mestre em Administração pela University of Southern California, Los Angeles, Califórnia, e graduado em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS) Antônio Carlos Côrtes (Advogado, Pesquisador da Cultura Negra, e presidente da Sociedade Floresta Aurora) Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (Docente da Universidade Federal de São Carlos e membro Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros desta Universidade e Conselheira da Câmara de educação Superior do Conselho Nacional de Educação por indicação do Movimento Negro) - Edilson Nabarro (Sociólogo Pós-Graduado/UFRGS. Militante do Movimento Negro desde a década de 70. Um dos fundadores da Revista Tição e do MNU/RS) Isete Maria do Nascimento (professor de letras e literatura licenciada pela UFRGS) Jones Lopes da Silva (jornalista e repórter de Zero Hora, que também participou da revista e do jornal Tição no início dos anos 80 Osvaldo Ferreira dos Reis (advogado e pesquisador da cultura africana. Além de Norton Figueiredo Corrêa, Oliveira Silveira, Waldemar Pernambuco Moura Lima, Nilo Alberto Feijó, Claudinho Pereira, Joaquim Lucena Neto, Silvia Abreu, Renato Rosa, Jorge Alberto da Silva Nascimento , Maria Conceição Lopes Fontoura - ícones e referências históricas da cultura e do movimentos negro gaúcho e nacional. Pesquisa de imagem: Leandro Machado Referências: JOAQUIM, Eduardo Santiago.Negro em Preto e Branco - História fotográfica da população negra de Porto Alegre. Disponível em: https://www.academia.edu/31110738/Negro_em_Preto_e_Branco_Hist%C3%B3ria_Fotogr%C3%A1fica_da_Popula%C3%A7%C3%A3o_Negra_em_Porto_Alegre . Acesso em 26/08/2024. Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra
- Banda Jazz Espia Só
A música negra é como uma árvore cheia de galhos e frutos. De acordo com essa abordagem histórica, dentre estes galhos e frutos temos a constituição de raízes que nos trazem a mobilidade e a diversidade da música brasileira, gaúcha e porto-alegrense. A riqueza da música gaúcha negra, muitas vezes desconhecida do grande público gaúcho, já despontava no começo do século XX, quando Porto Alegre era marcada por uma cena musical que movimentava a vida noturna. Como parte desta cena, tínhamos clubes, casas noturnas, bares e cabarés - como o Cabaret Ibá , o Moulin Rouge , o Dancing Oriental - e orquestras da noite - como a do Noé Guedes, a Orquestra Concórdia , a Paulo Coelho e Orquestra , a Jazz Futurista , entre várias outras que ambientaram o contexto com sua sonoridade. Identificando todas estas formações musicais, pode-se afirmar que, pautada pela alternância entre períodos curtos e longos, a relação entre o jazz e a noite de Porto Alegre já é centenária. Um dos gêneros musicais com origem negra norte-americana, o jazz esteve presente nos melhores cafés da Rua da Praia na década de 1920, embora consumido e apropriado por uma elite majoritariamente branca. Sob a influência proporcionada pelo rádio e pela indústria do disco, ambos ainda em fase inicial, surgiram bandas locais jazzistas como a Espia Só , a Royal, Guarany e a Cruzeiro . A experiência foi uma representação de um certo hibridismo musical que mesclava os sons da negritude norte-americana com as raízes musicais latino-americanas. A Espia Só , nesse contexto, foi o primeiro, ou um dos primeiros, grupos de jazz formado prioritariamente por músicos negros no Sul do Brasil, tendo essa prioridade para músicos negros não enquanto regra, mas como característica. A Jazz Espia Só era um g rupo instrumental criado, em Porto Alegre, em 1923, sob a liderança do flautista Albino Rosa. Inicialmente o grupo tinha o nome de Regional Espia Só , tendo em sua formação Albino Rosa (direção musical e flauta), Binga (1º violão de seis cordas), Marino dos Santos (cavaquinho e bandola - que é uma espécie de bandolim), Paulino Mathias (2º violão), Veridiano Farias (violino), Severo (ganzá) e Herald Alves (caixa clara). Albino Rosa, ao convidar alguns amigos que tocavam juntos após suas jornadas de trabalho, passaram a formar um conjunto musical. Curiosamente o nome do grupo surgiu a partir de uma música carnavalesca de sucesso público no Rio de Janeiro na época, que destacava a expressão popular “espia só” . Até 1926 foi chamado de Regional Espia Só. Nessa temporada, o grupo apresentou-se em ensaios das sociedades carnavalescas e, em diversas oportunidades, realizava de três a quatro serestas por semana, execuções musicais praticadas em espaços fechados, numa mistura de sarau e serenata. Naquele contexto de época, as serestas foram muitas vezes perseguidas e até proibidas pela polícia, que invariavelmente prendia músicos e envolvidos. Era preciso toda articulação para se reunir de surpresa, escondidos e com a máxima discrição para poder ensaiar. Bóris Fausto denuncia a criminalização que a música negra e sua cultura sofriam, em especial naquelas primeiras décadas do século XX, sendo a acusação prescrita nas leis de “vadiagem”, que funcionava como um conceito aberto, posição que abarcava muitos modos de vida e corpos, na busca por uma higienização da cidade. Um acontecimento importante no Regional Espia Só deu-se em 1926, quando a cidade de Porto Alegre recebeu a visita do celebrado conjunto Oito Batutas , dirigido por Pixinguinha. Na ocasião, surgiu o convite para que o Regional tocasse durante vinte dias na Exposição do Parque Menino de Deus. As modificações e influência geradas pela visita dos Oito Batutas à cidade levaram à mudança do nome do grupo que de Regional passou a se chamar Jazz Espia Só , nos mostrando uma relação de uma cultura regionalizada que se internacionaliza. Albino Rosa, o líder do Espia Só , era um negro que proporcionava ao grupo uma estética situado no ritmo quente do sincopado, estilo que viria mais tarde a se tornar popular. O grupo posicionou-se no seleto rol do jazz brasileiro com uma marca de jazz gaúcho, praticado por músicos e artistas com origem na população negra. Um movimento importante que marca a diversidade musical tendo se conectado com o mundo sem perder suas regionalidades e singulares. Pixinguinha acabou ajudando o grupo gaúcho a construir intermediações musicais e culturais entre Rio de Janeiro e Porto Alegre. No Rio, o jazz popularizava-se naquela época, misturando-se à cultura popular, dado que o jazz é por si uma fusão rítmica, onde os músicos podem solar individualmente e, em seu ato de improvisação, encontrarem-se neste espaço das sonoridades para construir uma harmonia musical. Nestas trocas, podemos dizer que, diante desta influência, houve inclusive uma troca de instrumentos. Albino Rosa passou a tocar sax alto e flauta; Oswaldino Peixoto, o trombone de pisto, que mais tarde ficaria conhecido como trombone de vara; Heraldo Alves e Marino dos Santos, sax alto e soprano; João Luiz tocava pistão na bateria, instrumento que até então era desconhecido dos músicos brasileiros. Armindo Alves, tocava banjo; Luiz Alves e Severiano de Souza, baixo-tuba. Essas modificações deram forma à época de ouro do Jazz Espia Só . O grupo não conseguia dar conta de toda a demanda que chegava do interior e até de Santa Catarina. Os convites vinham dos clubes, casas e redutos populares negros existentes na época, como por exemplo do Clube Caixeiral, do Clube do Comércio, da Sociedade Philosofia e da Sociedade Germânia. As apresentações traziam um repertório eclético com choros, polcas, valsas, havaneiras, tangos, schottichs, marchas e também o chamado charleston que era um ritmo daqueles anos 1920. Também tocavam músicas populares de carnaval nas festas carnavalescas e nos blocos de rua. A Espia Só era vista como uma orquestra porto-alegrense, uma “jazz band”. O sucesso do grupo chegou a tal ponto que, mesmo composto por vários músicos negros, a Espia Só era aceita nos ambientes mais elitizados, como no Clube Germânia, que não admitia negros nas suas festas e atividades sociais. Nesse aspecto, a Jazz Espia Só deve ser lembrada e incluída no grupo dos artistas que romperam com as discriminações vigentes, ocupando espaços e furando os bloqueios existentes à presença da negra e do negro nos espaço públicos de Porto Alegre, indo ocupar um lugar de destaque na memória das lutas antirracistas. Albino Rosa faleceu em 1982 e Paulino Mathias, em 1977. Depois disso, alguns remanescentes do Espia Só reuniram-se pontualmente para relembrar os velhos tempos de resistência e sucesso do grupo, que deixou de existir. Pesquisa de imagem: Leandro Machado Referências: Reportagem de Marcello CAMPOS. Blue Jazz Bar: espaço garantido para o jazz na vida noturna de Porto Alegre . Jornal do Comérico. Publicada em 28 de Novembro de 2024. Página: https://www.jornaldocomercio.com/especiais/reportagem-cultural/2024/11/1181339-blue-jazz-bar-espaco-garantido-para-o-jazz-na-vida-noturna-de-porto-alegre.html . Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira . Jazz Espia Só . Dados Históricos e Artísticos. 2021. Página: https://dicionariompb.com.br/grupo/jazz-espia-so/ . Artigo de Petrônio DOMINGUES. De Nova Orleans ao Brasil: o jazz no Mundo Atlântico . Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 40, nº 85, 2020 http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472020v40n85-09 . Artigo de Arthur de Farias com o título: Série As Origens – Parte XXII . 17 de Julho, 2020. https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/arthur-de-faria-serie-as-origens-parte-xxii . HOBSBAWM, Eric J. História social do jazz . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. LABRES, Filho, Jair Paulo. Que jazz é esse? As jazz-bands no Rio de Janeiro da década de 1920 . Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2014. LUNA, Paula. Fenômeno esquecido da época romântica da música popular: a Jazz Espia Só . 30/10/2011. Página: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-musica/3306676 NETO, Nicolau Clarindo Paulo. SONORIDADES MODERNAS EM TRÂNSITO: A ORIGEM DAS JAZZ BANDS CATARINENSES E SUAS TRILHAS DE 1920 A 1940 . Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Música, subárea Teoria e História, do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, em cumprimento aos requisitos necessários à obtenção do grau acadêmico de Mestre em Música. Florianópolis, SC, 2021.
- QUITANDEIRAS
Q uando se pensa nas quitandeiras ou nas assim também chamadas negras minas que percorriam os centros das cidades e vilas do Brasil nos séculos XVIII e XIX - aquelas mulheres negras carregando sobre a cabeça alimentos e quitutes em seus tabuleiros - é comum imaginá-las como personagens por certo um lado romantizadas, numa cena cotidiana do nosso país dos períodos colonial e imperial. No entanto, transitar por ruas, becos e vielas vendendo alimentos no espaço público era uma prática ressignificada de uma tradição legada às mulheres em especial nas regiões centrais e da costa oeste do continente africano. A atividade de “ganhadeiras” era natural às negras traficadas, como destaca a pesquisadora Juliana Bonomo, pois, nas sociedades africanas, as tarefas de subsistência doméstica e circulação de gêneros eram delegadas às mulheres. Numa grande extensão da costa da África, o pequeno comércio era tarefa feminina e lhes garantia papéis econômicos importantes. Também atravessou o atlântico nos tumbeiros (nome que se dava aos navios negreiros) a palavra e o conceito “quitanda” – kitânda (com a letra k) no dialeto quimbundo de Angola, dialeto este que plantou raízes na cultura brasileira. A “quitanda significa aquelas coisas que as negras levavam nos tabuleiros para expor as mercadorias que tinham. Normalmente gêneros alimentícios tais como aguardente, bolos, leite, broas, biscoitos e fumos” (refere Juliana Bonomo). Assim, a realidade social encontrada no Brasil estimulou a volta de antigos conhecimentos permitindo a interação necessária para lidar com as relações sociais no novo mundo. As quitandeiras tornaram-se figuras necessárias numa configuração social de desenvolvimento urbano em que uma multidão de pobres, escravizados, forros e outros ganharam as ruas das cidades rompendo com a prática de se alimentar no espaço doméstico. Tal situação tornou o ato de fornecer alimentos de maneira ambulante no espaço público uma atividade econômica necessária e importante. Esse comércio, que era visto nos centros urbanos do país, foi relatado como existente em Porto Alegre, no ano de 1821, pelo naturalista e botânico francês Auguste Saint-Hilaire. “É na Rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se laranjas, amendoim, carne seca, molhos de lenha e de hortaliças, principalmente couve. Como no Rio de Janeiro, os vendedores são negros,” - registrou o botânico. O cronista Achylles Porto Alegre descreve o périplo das quitandeiras pelas ruas e espaços da capital gaúcha e a venda de alimentos também na porta de suas casas. Essas trabalhadoras eram chamadas pelo cronista de quitandeiras negras mina. O termo mina - para Eliana Xavier e Gláucia Fontoura - era utilizado pelo colonizador para denominar grandes áreas africanas de tráfico de escravos, como Angola, Congo, Benguela, entre outras, e acabou sendo incorporado pelos brasileiros como autodesignação de um certo grupo de negros. Muito importante é destacar que cerca de 70% dessas mulheres - as quitandeiras - conseguiram juntar pecúlio suficiente para abandonar a situação de escravizadas e garantir sua sobrevivência e a de sua família. Outras atividades a que essas mulheres se entregavam quando podiam era o trabalho de lavadeiras, engomadeiras e, em especial para o imaginário popular de longa duração no tempo, também às funções de curandeiras, feiticeiras e vendedoras de ervanários. A presença dessas mulheres no cenário urbano da capital demarcaram lugares importantes para o sentimento de territorialidade negra, como é o caso do Largo da Quitanda (a hoje popular Praça da Alfândega) e nas bordas da Colônia Africana (no Parque da Redenção). A memória da quitanda continua viva e marcante, por exemplo, no maior monumento negro do Centro Histórico – o Mercado Público – que para os babalaorixás e yalorixás guarda em seus quatro portais de entrada a presença de floras que cristalizam a prática de venda de ervanários, uma marca de todas as entradas daquele prédio significativo para a memória negra em Porto Alegre. Referências: BASSO, Rafaela. Espaços de Alimentação: o desenvolvimento do comer fora de casa na cidade de São Paulo séculos XVIII e XIX. https://ocs.ige.unicamp.br>ojs>react>article>download . Disponível em: 02/05/2025. BONOMO, Juliana Resende. O Tabuleiro Afro-brasileiro: o abastecimento alimentar e a resistência das quitandeiras negras no Brasil do século XVIII. Anais eletrônicos do XXII Encontro Estadual de História da Anpuh-SP, Santos - 2014 Disponível em: Microsoft Word - 1405976865_ARQUIVO_OTABULEIROAFROanpuhsantos.docx 04/04/2025. PORTO ALEGRE, Achilles. História Popular de Porto Alegre. Porto Alegre: PMPA – Unidade Editorial, 1994. SAINT-HILLAIRE, Auguste de. A Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-1821. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1939. VARGAS, Pedro Rubens N. Ferreira. A relação patrimonial na restauração de bens culturais: o mercado de Porto Alegre e os caminhos invisíveis do negro. Curitiba: Appris, 2017. VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre (1800-1970). São Paulo: Hucitec, 2021. XAVIER, Eliana Costa e FONTOURA, Maria Dias. O sentido de trabalho para as mulheres negras. (PDF) Negras Minas: o sentido do trabalho para as mulheres negras . Disponível em: 03/04/2025
- SALÃO RUY BARBOSA
E m 20 de fevereiro do ano de 1936, o jornal Correio do Povo trouxe uma publicação das celebrações relacionadas aos festejos momescos, sendo a espera pelo baile burlesco, que era anunciado então como ricamente ornamentado no estilo egipciano, um dos eventos esperados com entusiasmo pelos foliões. O mesmo estava marcado para ocorrer no Salão do Ruy, sendo promovido pela Sociedade Filosofia Negra. Palco de grandes festas carnavalescas e encontros da sociedade negra porto-alegrense nas décadas de 1930 e 1940, o Salão do Ruy Barbosa - ou Salão do Ruy, como também era popularmente conhecido - recebeu a nomenclatura em homenagem ao abolicionista homônimo (Ruy Barbosa viveu entre 1849 e 1923). Situado no coração do território negro da Colônia Africana, mais especificamente no cruzamento das ruas Casemiro de Abreu e Esperança (atual Miguel Tostes), teve também a alcunha de sociedade de pretos da Rua Esperança. O Salão oferecia seus espaços para inúmeras sociedades de outros territórios negros da cidade, como a Sociedade Prontidão e a Sociedade Floresta Aurora. Suas salas, ao longo do ano, acolhiam encontros da comunidade negra que aconteciam geralmente ao som das jazz-bands, reunindo uma rica ornamentação e vestes de gala. Iris Graciela Germano, em sua tese de mestrado na UFRGS, escrita em 1999, afirma que as sociedades negras, organizadas em blocos e ranchos, saiam às ruas defronte de suas sedes e salões no carnaval para esperar a passagem dos corsos de automóveis, entre os quais o do Salão do Ruy. A fotógrafa Irene Santos, em seu livro de 2010, descreve o Salão do Ruy como um prédio à direita de quem sobe para avenida Independência, com um corrimão imponente de madeira lustrada por onde desciam ilustres artistas negros locais e nacionais da música e do teatro, assim como as rainhas dos clubes. Tinha também um grande corredor atrás da escada e, no fundo, uma copa próxima aos banheiros. Na frente do palco tinha um salão com uma escada para o acesso dos destaques e atrações artísticas. A capacidade era de 500 pessoas que deslizavam pelo piso encerado e se olhavam nos espelhos que circundavam a sala de baile. O surgimento no Salão do Ruy provavelmente tenha ocorrido nas primeiras décadas do século XX e seu término deve ter acompanhado o processo de gentrificação ocorrido com a Colônia Africana, que resultou na retirada dos negros deste espaço nas décadas após a de 1950. Pesquisa de imagem Jane Mattos - Desenhos de como era o salão. Referências: Correio do Povo ,20/02/1936, p.11. GERMANO, Iris Graciela. Rio Grande do Sul, Brasil e Etiópia: os negros e carnaval de Porto Alegre nas décadas de 1930 e 40 . Mestrado em História- PPGH Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1999. SANTOS, Irene.et.al . (coords). Caboclos e Quilombolas, memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: Do autor, 2010.
- GIBA GIBA
G ilberto Amaro do Nascimento, mais conhecido como Giba Giba, foi um dos maiores expoentes da música e da cultura afro-brasileira no Rio Grande do Sul. Nascido em Pelotas em 1936, Giba Giba se destacou como percussionista e compositor, sendo um dos principais responsáveis pela divulgação e preservação do sopapo, um tambor de origem afro-gaúcha, e por sua introdução nas baterias das escolas de samba de Porto Alegre. Ao longo de sua vida, desempenhou um papel crucial na valorização da cultura afro-rio-grandense, tendo se transformado em ícone e referência na cena musical e cultural do estado. O músico negro cresceu em Pelotas, cidade que tem uma forte influência da cultura afro-brasileira, e sua infância e adolescência estiveram intimamente ligadas ao universo do carnaval e da música. Ao mudar-se para Porto Alegre, na década de 1960, rapidamente enturmou-se com o movimento carnavalesco local, acabando por destacar-se como um dos fundadores da Escola de Samba Praiana, uma das primeiras escolas de samba da capital gaúcha. Foi nessa época que o sopapo, tambor tradicional gaúcho de couro, ganhou destaque nas baterias das escolas de samba, graças à iniciativa de Giba Giba, que trouxe o instrumento para a cena carnavalesca da cidade. O sopapo, que tem raízes na cultura afro-brasileira e foi inventado por escravos na região de Pelotas, é um dos símbolos da musicalidade do Rio Grande do Sul. Tradicionalmente tocado com as mãos, o sopapo tem um papel central na MPG. Na década de 1980, o instrumento passou por um período de declínio devido à crescente influência do samba carioca, fenômeno denominado de "carioquização". Nesse contexto, Giba Giba se tornou um dos grandes responsáveis pela revitalização do sopapo, trazendo-o de volta ao palco musical e conferindo-lhe uma nova identidade dentro da música popular, especialmente em Porto Alegre. Um dos marcos mais importantes de sua carreira foi a criação, no final dos anos 1990, do Projeto Cabobu, um evento cultural realizado em Pelotas que buscava resgatar e divulgar a memória cultural afro-gaúcha. O projeto envolvia palestras, shows, e a construção e distribuição de tambores de sopapo para percussionistas e grupos de samba. Giba Giba, ao lado de outros mestres como Mestre Baptista, que também foi uma referência na construção dos sopapos, organizou o evento que contribuiu para a expansão do uso do instrumento nas músicas contemporâneas. Ao longo de sua carreira, Giba Giba teve uma profunda influência sobre a música popular do Rio Grande do Sul. Seu trabalho como compositor e intérprete foi reconhecido por artistas de renome, como Vitor Ramil e a dupla Kleiton e Kledir, que gravaram suas músicas. Seu álbum Outro Um (1994), que lhe rendeu o Prêmio Açorianos de Melhor CD, é considerado um marco na música popular do estado. Giba Giba também foi um defensor da integração da música negra na cultura local, tendo sido conselheiro de Cultura do Estado e assessor de assuntos afro-açorianos na Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Entre os espetáculos de destaque nos quais esteve envolvido estão A Ópera dos Tambores e Missa da Terra Sem Males , ambos de grande relevância na cena cultural do Rio Grande do Sul. Esses eventos, que reuniam música, dança e cultura afro-brasileira, ajudaram a consolidar sua imagem como um dos principais difusores da cultura negra no estado. Além de sua contribuição à música, foi um incansável defensor da cultura negra e de suas raízes no Rio Grande do Sul. Seu trabalho ajudou a inserir a cultura afro-gaúcha no debate público e a fortalecer a identidade negra no estado. Em vida, ele foi laureado com o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre em reconhecimento a sua contribuição para a cidade e sua cultura. Giba Giba faleceu em 2014, deixando um legado que continua a ser celebrado por músicos, pesquisadores e amantes da cultura afro-brasileira. Até hoje é lembrado não apenas como um mestre da percussão e da música popular, mas também como um ativista cultural que lutou pela valorização da herança afro-rio-grandense e pela preservação de sua identidade musical única. Sua obra e seu impacto continuam a inspirar as novas gerações de músicos e artistas da região. Principais Contribuições: ● Revitalização do sopapo: Giba Giba foi um dos maiores responsáveis pela preservação e popularização do sopapo, instrumento tradicional afro-gaúcho. ● Fundação da Escola de Samba Praiana: considerada por alguns a primeira escola de samba de Porto Alegre, que introduziu o sopapo nas baterias do samba local. ● Criação do Projeto Cabobu: Evento cultural que resgatou e divulgou a cultura afro-gaúcha, além de estimular a construção e o uso do sopapo. ● Reconhecimento público: Cidadão Emérito de Porto Alegre e vencedor de diversos prêmios, incluindo o Prêmio Açorianos de Melhor CD. Discografia ● Outro Um (1994) – Prêmio Açorianos de Melhor CD ● Participação em vários álbuns de outros artistas, como Vitor Ramil e Kleiton e Kledir. Referências Culturais ● A Ópera dos Tambores – Espetáculo que misturava música, dança e cultura afro-brasileira. Espetáculos: ● A Ópera dos Tambores e Missa da Terra Sem Males – grandes espetáculos musicais e culturais que contaram com sua participação. Pesquisa de imagem: Leandro Machado Referências: Brum, Letícia Morales. "Um percurso afetivo através de canções que cantam Porto Alegre." Mouseion 10 (2011): 108-129. Do Nascimento, Edu. "BONECOS ANTIRRACISTAS." MAMULENGO: 21. Kinoshita, Lucas. "Ensinar Sopapo: um estudo com tocadores, conhecedores e mantenedores do instrumento." XXV Congresso Nacional da Associação Brasileira de Educação Musical. 2021. https://www.brasildefators.com.br/2020/04/23/o-homem-e-o-sopapo-giba-giba-expoente-da-c ultura-afro-gaucha. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/musica/noticia/2014/02/morre-em-porto-alegre-o-c antor-compositor-e-instrumentista-giba-giba.html
- Nilo Alberto Feijó
N ilo Alberto Feijó nasceu em Porto Alegre no ano de 1933, na região da antiga Colônia Africana (atuais bairros Montserrat e Rio Branco), sendo o mais velho de seis irmãos. Faleceu nesta mesma cidade em 06 de janeiro de 2016. Ao longo de seus 82 anos de vida, por sua trajetória, tornou-se um dos mais proeminentes representantes da cultura e do movimento negro local e nacional. Atuou ativamente no carnaval da capital como pesquisador, compositor, carnavalesco, jurado e comentarista em canais de televisão sobre o desfile das escolas de samba e tribos locais. É considerado precursor dos sambas enredo do carnaval gaúcho e suas músicas pautaram o desfile de escolas de alta popularidade, como a Acadêmicos da Orgia, a Imperadores do Samba e, principalmente, a Trevo de Ouro, um dos mais antigos. Era figura tão presente nas folias presididas por momo que ele próprio se tornou matéria-prima para os conteúdos dos festejos, vindo a dar nome ao Prêmio Personalidade do Carnaval Porto-alegrense Nilo Alberto Feijó (Resolução 2.803 de 15/03/2024), oferecido pela Câmara dos Vereadores de Porto Alegre, premiação destinada ao reconhecimento de grupos, entidades ou personalidades que se destacam na defesa, na divulgação e na preservação da tradição do carnaval da cidade. Nilo foi ainda militante e agente do movimento negro, representando os clubes sociais negros no Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do RS – CODENE, órgão de aconselhamento e participação do governo do Estado, onde foi o presidente entre 2008 e 2010. Compôs também o Conselho Municipal dos Direitos do Povo Negro de Porto Alegre, na gestão que compreendeu o biênio 2011-2013. Também participou ativamente dos debates encaminhados pelo conjunto de entidades negras que se estenderam do fim dos anos 1990 à primeira década dos anos 2000 em prol da estruturação do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, projeto cujo empenho pessoal o levou a dar guarida em sua residência para a museóloga baiana Ilma Villasboas, que redigiu o plano museológico do Museu de Percurso, uma exigência do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). Todavia, sua contribuição mais marcante para o desenho do perfil estético e político que embasa o Museu foi sua participação no papel de griô, junto com Elaine Machado (Grupo Mocambo), Mestre Borel (1909-2011) e José Alves Bittencourt (1942-2009) – o Lua – que contribuíram com suas memórias para inspirar o coletivo de artistas que ergueu na praça próximo ao Museu do Trabalho a obra “O Tambor”, em 2010. Pode-se dizer que a ampla e qualificada atuação de Nilo Feijó na sociedade civil e sua atuação junto às demandas do povo negro encontram amparo na sua ampla vivência junto aos clubes sociais negros de Porto Alegre, em especial na Associação Satélite Prontidão (ASP), entidade em que esteve na diretoria por mais de 20 anos, sendo seu presidente em três mandatos. A Associação Satélite Prontidão carrega essa denominação desde 1956, ocasião em que se fundiram as sociedades Satélite e Prontidão. A nova agremiação foi fundada no bairro Cidade Baixa (rua Baronesa do Gravataí), região do Areal da Baronesa, onde se encontra o primeiro quilombo urbano reconhecido no Brasil e que foi o berço do carnaval negro da cidade, onde a própria sociedade Prontidão nasceu como bloco carnavalesco. No entanto, com a denominação de Satélite, essa mesma associação atuava desde 20 de abril de 1902, data em que foi fundada por famílias negras da capital com o objetivo de manter vivas as tradições, a cultura e a educação daqueles que descendiam de escravizados. Naquele ano, fazia apenas 14 anos que a lei da abolição da escravidão no país tinha sido instituída. Nilo chegou à SAP pelas mãos de seu pai Camilo Américo Feijó e ainda nos anos 1950 passou a integrar um dos blocos oriundos dos “prontos”, como eram chamados os associados do Prontidão. Esse bloco era o Trevo de Ouro. As associações negras como a SAP, a Floresta Aurora – fundada em 1872 e veículos de imprensa como o jornal O Exemplo (que circulou entre 1892 e 1930), foram responsáveis, nas primeiras décadas do século XX, pelas principais lutas para integrar a população negra à sociedade através da educação. Os escravizados e os recém libertos, nestas primeiras décadas após a abolição eram majoritariamente analfabetos. Na SAP, Nilo contribuiu para estruturar uma sociedade que estimulou a educação por meio de cursos e pré-vestibulares e procurou valorizar o papel decisivo das mulheres negras (vanguardeiras prontistas). Instituições como a SAP são apresentadas como espaços de territorialidade negra no trabalho da geógrafa Daniele Vieira, segundo a qual “a territorialidade negra urbana provém dos percursos construídos e vivenciados pelos africanos e seus descendentes”. Nesse sentido, Nilo Feijó é um exemplo, uma vez que construiu um percurso e uma trajetória de vida que reflete essas apropriações e significados próprios aos territórios negros. O reconhecimento ao trabalho de Nilo Feijó está materializado também em ações como, a premiação Troféu Nilo Feijó oferecida anualmente pela Sociedade Floresta Aurora na Semana da Consciência Negra, a denominação do Centro de Referência do Negro Nilo Feijó na Avenida Ipiranga 311 e na denominação de uma rua da cidade no bairro Campo Novo. Além de tudo, ele foi ainda colaborador no consagrado livro-fonte de pesquisa Negro em Preto e Branco de Irene Santos publicado em 2005. Pesquisa de imagem de Leandro Machado Referências: Morre Nilo Feijó, ícone da cultura negra no Rio Grande do Sul - Geledés disponível em: 02/08/2025 FEIJÓ Ana Lúcia Do preto e branco ao colorido: os 110 anos da Associação Satélite Prontidão em uma viagem no tempo através da fotografia disponível em 03//08/2025 Nilo Feijó será homenageado em rua do bairro Campo Novo | Câmara Municipal de Porto Alegre disponível em 03/08/2025 VIEIRA Daniele M et ali (vários autores). Territórios negros em Porto Alegre: construindo possibilidades de percursos SMED Porto Alegre 2017 Apresentação do PowerPoint
- TRIBOS CARNAVALESCAS
As tribos carnavalescas de Porto Alegre representam uma das tradições mais emblemáticas e originais do carnaval gaúcho, sendo uma fusão das influências indígenas e afro-brasileiras que resulta em uma identidade única. Surgidas entre as décadas de 1940 e 1950, essas tribos ofereceram uma alternativa opular ao carnaval elitizado dos salões, destacando-se inicialmente no carnaval de rua. Criadas por moradores da periferia, elas refletiam a busca por um espaço de pertencimento e a afirmação cultural, num contexto em que o poder público incentivava os “carnavais de bairro”, festas comunitárias que reuniam as pessoas em torno de blocos e escolas de samba. O contexto histórico do surgimento das tribos está diretamente relacionado ao processo de busca por uma identidade nacional nos anos 1930 e 1940, período em que o indígena passou a ser simbolicamente associado à brasilidade. Inspirados por essa construção de identidade, as tribos surgiram nas áreas periféricas de Porto Alegre como uma forma de se contrapor ao carnaval sofisticado e restrito aos clubes da elite, nos quais os mais pobres não tinham acesso. Ao longo dos anos, essas manifestações se consolidaram como um símbolo de resistência e de valorização da cultura popular que passou a ter um espaço de expressão nas avenidas do carnaval oficial da cidade, onde foi criada uma premiação especial para as tribos. "Os Comanches" e "Os Guaianazes" - denominação dos grupos mais premiados - distinguiam-se pelas fantasias que remetiam ao universo indígena, particularmente ao dos norte-americanos, uma provável influência da visão indígena da época, quando no cinema e na televisão predominavam os filmes em torno da ocupação do Oeste americano. No entanto, essas tribos não se limitavam a imitar ou reproduzir aquelas figuras da estética indígena dos filmes de cowboy. Era evidente a incorporação também de diversos elementos da cultura afro-brasileira, criando deste modo uma representação única e multifacetada para identidade popular. O “índígena guerreiro” era a figura central nas fantasias e nos desfiles, não apenas como um símbolo de força e coragem, mas como uma forma de afirmar o pertencimento e a identidade da comunidade que participa da festa. Um dos momentos mais emblemáticos do carnaval das tribos dava-se no “jogo da guerra”, uma competição simbólica e carregada de rituais entre as tribos, especialmente entre "Os Comanches" e "Os Guaianazes". Tal disputa ia além da rivalidade. Era uma celebração da identidade e da criatividade dos participantes, expressa na síntese entre fantasias, danças e músicas. O jogo acontecia não apenas na avenida dos desfiles carnavalescos, mas também em um espaço simbólico onde a rivalidade misturava-se com respeito e cooperação. As fantasias, criadas de forma colaborativa, tinham a contribuição fundamental das mulheres e de diversos artistas visuais do meio popular que desenhavam e construiam suas as roupas baseadas nos temas do ano. A improvisação era um aspecto crucial desse processo, o que garantia que cada desfile fosse repleto de surpresas e inovações. Desse modo, é possível afirmar que a identidade das tribos carnavalescas de Porto Alegre é fluida e dinâmica, construída no próprio processo criativo do carnaval. As danças, os ritmos e as interações entre os membros das tribos formavam o tecido dessa identidade, que transcendia a ideia fixa do "índígena" ou "afrodescendente". Embora as tribos carnavalescas de Porto Alegre tenham reduzido sua popularidade e presença no carnaval da cidade no período mais recente, havendo apenas duas ainda ativas - justamente as tradicionais "Os Comanches" e "Os Guaianazes" - elas continuam a representar uma forma de resistência e preservação da cultura popular e uma marca totalmente original no carnaval porto-alegrense em comparação com o restante do país.. Mesmo com o crescimento das escolas de samba a partir da década de 1970, as tribos mantiveram-se vivas na tradição do carnaval de rua, colocando-se como espaços de reinvenção cultural. Ainda na atualidade, em que pese de forma mais residual, essas entidades como importantes símbolos de pertencimento e resistência, onde a disputa simbólica do “jogo da guerra” é transformada em um ritual de criatividade e luta por diversidade, representatividade social e cultural das periferias na grande cidade. As tribos foram sempre uma alternativa popular ao carnaval elitizado e continuam a ser um exemplo de expressão da cultura de rua em Porto Alegre, uma evidência das raízes populares e da riqueza cultural dessas origens. Referências: Moura de Quadros. O batuque do Rio Grande do Sul representado em dois contos de Maria Helena Vargas da Silveira (1940-2009). Revista de Letras 22.38 (2020). Édson Luís Dutra. Escola de samba na mídia: a cobertura do carnaval de Porto Alegre nos jornais Correio do Povo e Zero Hora entre 2001 e 2005 . MS thesis. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2023. Luiza Dias Flores. As invenções da guerra: reflexões sobre um jogo carnavalesco. Novos Cadernos NAEA 22.1 (2019). Diversas reportagens de Zero Hora e RBS TV disponíevis nas redes sociais: LINK: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/02/tribos-indigenas-marcaram-e poca-na-folia-em-porto-alegre-ck6qujfrd0hqm01mvzcoyqc9s.html
- AFRICANOS LIVRES
Imagem meramente ilustrativa - feita por IA - por não haver registro destes AFRICANOS LIVRES citados no verbete a seguir. E m 30 de junho de 1857, por despacho de um juiz de direito de então, foi remetido à Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre o boçal Antônio, de nação Cabinda. Boçal era nome que se dava aos negros africanos recém-chegado e ignorantes a respeito dos costumes e dos modos de viver na sociedade escravocrata brasileira. Situação similar foi vivida por Manoel Congo, remetido à Santa Casa da capital, em 1861. Dez anos antes, em 1851, como apontam pesquisas realizadas pelo historiador Vinicius de Oliveira, esta mesma instituição de caridade já havia recebido os 24 primeiros africanos livres legalmente reconhecidos de que se tem registro no Rio Grande do Sul. A categoria “africanos livres” era concedida a africanos e africanas que entraram no Brasil após 7 de novembro de 1831 (Lei Feijó), devido à proibição do comércio atlântico de escravizados. Essa lei proibiu a importação de escravizados, sendo declarados livres aqueles que haviam sido trazidos ao país após a sua instituição. Deste modo, a nomenclatura “africano livre” vai se juntar às demais formas de identificar a população negra no século XIX: escravos, livres ou libertos. No entanto, pode-se dizer que a experssão “africanos livres” ou “emancipados” era um eufemismo para conceituar uma categoria intermediária entre escravidão e liberdade. Homens e mulheres enquadrados nessa perspectiva não seriam imediatamente postos em liberdade nem tampouco retornariam ao continente africano, mas sim deveriam cumprir uma espécie de pedágio ou cautela, trabalhando um determinado número de anos para o estado (arsenais da Marinha ou de Guerra, fortalezas, fábricas, casas de correção, entre outros) ou concessionários particulares como as Santas Casas de Misericórdia, podendo em alguns casos receberem uma ínfima remuneração. A justificativa era a necessidade de adaptação ao estado escravista brasileiro antes da concessão da liberdade plena. A entrada desse grupo no estado e na capital em particular vai colaborar de forma decisiva para a paulatina mudança demográfica no seio da população negra. Até então, vislumbrava-se um quadro populacional majoritariamente de origem banta, responsável, com algumas exceções, pelas manifestações religiosas relacionadas às congadas e à coroação de reis e rainhas africanas, expresões estas ligadas às irmandades católicas, em especial a do Rosário, numa espécie de catolicismo de inspiração africana. Provavelmente, a origem dessas tradições de cunho religioso pode ser vista no distante ano de 1485, antes da ocupação portuguesa do Brasil, quando o manicongo – rei do Congo - chamado Nzinga-a-Nkuwa - recebeu o batismo cristão, mudando o nome para João I, homônimo do soberano português. Como pensa Laurentino Gomes, esse fato foi a oportunidade para o nascimento de uma peculiar forma de catolicismo, até hoje vigente nessa região da África, que mistura crenças e rituais de origem católica com outros de raiz local, ancestral e genuinamente africana. No Brasil a situação de escravizados, com quase toda a certeza gerou novos códigos de sociabilidade cimentando uma identidade negra em terras estrangeiras. A partir de 1831, entretanto, nota-se uma maior diversidade étnica entre os grupos que irão compor a população negra no RS, em particular nas cidades de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Não por acaso, localidades que apresentam ligação fluvial com o único porto marítimo do estado, região onde ocorrem apreensões de transporte clandestino de africanos. Diferente da maior concentração de povos negros na capital, a maioria oriunda da costa oeste da África Central – macrorregião que compreende Angola e Congo – de cultura banta, os novos entrantes negros eram originários das regiões acima da linha do equador, conhecida por Costa do Ouro, Costa dos Escravos ou Costa da Mina, com predominância de linhagens de cultura iorubá. Tal inflexão no quadro demográfico da população negra local, lento, mas em avanço contínuo, vai trazer mudanças significativas para o processo de lutas pela abolição, novas sociabilidades e a abertura para outras perspectivas religiosas, como é o caso do batuque de nação. Na atualidade, o batuque representa parte importante da identidade negra porto-alegrense, surpreendendo por sua força nas manifestações religiosas negras no estado “mais europeu” do país. Pode-se pensar que as marcas profundas da presença negra na moldagem de territórios nos pós-abolição - e mesmo a projeção nos anos vindouros da força da cultura e do movimento negro na cidade - deve-se sobremaneira à diversidade cultural e étnica dos povos negros que aqui fincaram raízes, processo histórico em que, sem dúvida, os africanos livres tiveram papel destacado. Referências: OLIVEIRA, Vinicius Pereira. Um pátio étnico: africanos livres na Santa Casa de Porto Alegre. Racismo, relações de poder e história negra em Porto Alegre: séculos XIX-XX/Centro Histórico-Cultural Santa Casa , org. José Rivair Macedo, Paulo Roberto Staudt Moreira, Vera Lúcia Maciel Barroso- Porto Alegre: Evangraf: ISCMPA,2023. Histórias de batuques e batuqueiros [livro eletrônico]: Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Autoria de Vinicius Pereira de Oliveira, Denis Pereira Gomes, Jovani de Souza Scherer – publicado em Pelotas. Edição dos Autores, 2021. GOMES, Laurentino. Escravidão: do primeiro de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares , volume 1 – 1 ed. – Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.
- Jara Musisom
Foi em 1973, anos de chumbo do Brasil, que uma turma de pessoas majoritariamente pretas, apesar do contexto político adverso, passou a se reunir para fazer o que mais gostava nos momentos de folga, geralmente aos finais de semana, o que mais tocava seus corações: as festas com muita dança e boa música. Em Porto Alegre, nessa época, nasceu um dos movimentos que deixaria saudade e ótimas lembranças para os seus frequentadores, os bailes blacks do Grupo Jara Musisom! As festas do Jara, que se tornaram sucesso entre os pretos das periferias de Porto Alegre e grande Porto Alegre, se chamavam “Black Night”, comandada pelo Dj Brother Neni e realizada no salão de festas do Sindicato dos Metalúrgicos, um dos primeiros sindicatos de classe criados na capital, no ano de 1931, e que ficou conhecido como “Metal”. Assim como aconteciam movimentos e festas black em todo o país e nas principais cidades, expressão também de resistência e representatividade negra, Porto Alegre manteve essa expressão por bastante tempo. Vale salientar que um dos espaços que acolheram as festas black, foram os clubes negros, com destaque para a Sociedade Floresta Aurora, fundada em 1872, o mais antigo do gênero no Rio Grande do Sul, lugar onde realizavam-se festas diversas, encontros sociais, casamentos e aniversários e que também foi palco das festas idealizadas pelo Brother Neni e outros DJs. Um destes, bastante popular, foi o DJ Gê Powers, promotor de inúmeros eventos na cidade, que ocupou vários salões de baile. Importante salientar o quanto estas festas representavam e engajavam uma juventude negra numerosa, trabalhadora e ocupada nos dias de semana, e que, nos momentos de folga, não encontrava espaços para frequentar e usufruir de um lazer saudável e sem violência, a não ser, dentro de seus próprios territórios, em suas vilas e casas. Para a juventude negra da cidade daqueles anos de ditadura militar, o racismo vigente e exacerbado significava sempre a possibilidade do jovem negro não ser bem-visto e muito menos bem-vindo nos ambientes predominantemente feitos para receberem pessoas brancas. Uma das razões pelas quais as festas Black tornaram-se populares. A festa idealizada por Brother Neni completou 40 anos em 2023, e ainda até os tempos atuais acontece duas vezes por ano, em comemoração do aniversário do Dj, que está atualmente com os seus 74 anos de muita música e resistência e continua trazendo alegria através de ritmos como o Funk, o Charme e a Soul Music, embalando muitas pessoas pretas que viveram e ainda vivem esse sentimento de paz e segurança das festas Black. Viva o Jara Musisom! Essa pesquisa tomou como referência as seguintes fontes: https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/reportagem/resistencia-e-transformacao- uma-historia-dos-bailes-black-em-porto-alegre/ http://eucurtiajaramusisom.blogspot.com/ Pesquisa de imagem: Leandro Machado Blog Blacks Balanço blacksbalanco.blogspot.com/2009/10/grupo-jara-mussiom-de-rosangela.html Blog Eu Curtia Jara Musisom https://eucurtiajaramusisom.blogspot.com/ Instagram instagram.com/grupojaramusisom/ Facebook BAILE Charmeiros do Sul facebook.com/photo/?fbid=1157916199453625&set=pcb.1157916276120284&locale=pt_BR Facebook Black Night facebook.com/photo/?fbid=974029004520181&set=a.544412977481788&locale=pt_BR Vozes e Olhares – Memórias Negras para Todos Recurso de acessibilidade do projeto: O Projeto Memórias Negras valoriza a inclusão e aplica medidas de acessibilidade para que seus conteúdos em vídeo possam ser apreciados por todos. Para o público surdo, são oferecidas legendas , garantindo a compreensão das falas, sons e contextos. Para pessoas cegas, há o recurso da leitura do verbete em áudio , que descreve imagens, expressões e cenários, permitindo acompanhar a narrativa em sua plenitude. Ao adotar essas práticas, o Projeto reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à informação, à memória e à cultura negra. Mais do que cumprir uma exigência técnica, trata-se de reconhecer a diversidade e assegurar que cada pessoa possa vivenciar e se identificar com as histórias contadas. Texto e pesquisa: Pedro Ferreira Mathias Vozes: Vitor Ortiz Regius Brandão Juliana Bittencourt Pesquisa e curadoria de imagem: Leandro Machado Trilha sonora: Banda Kalunga Edição de áudio, vídeo e legendagem: Juliana Bittencourt Projeto: Memórias Negras em Vebetes Realização: Voz Cultural Apoio: Sindbancários Financiamento: PróCultura; Governo do Estado do RS, Secretaria da Cultural; Lei Paulo Gustavo; Ministério da Cultura, Governo Federal Brasil, União e Reconstrução; 📢 Compartilhe e fortaleça essa rede de memória! #MemóriasNegras #MestreBorel #CulturaAfro #BatuqueRS #ReligiõesDeMatrizAfricana #HistóriaNegra #PortoAlegre #LeiPauloGustavo #sedac_rs #MinC @sedac_rs @minc @lei_paulogustavo @fundacaopalmares
- Neri Caveira
Neri Soares Gonçalves, o Neri Caveira, foi mestre de bateria e músico percussionista. Nascido em 1937, foi criado no Areal da Baronesa, um dos berços do samba na cidade de Porto Alegre. Era afilhado de Robson Rodrigues, irmão de Lupicínio Rodrigues, e desfilou em diversos carnavais ao lado de Adão Alves de Oliveira, o Rei Lelé - o primeiro Rei Momo Negro da cidade, que também oriundo do Areal. O mestre de bateria teve passagens por algumas das mais importantes escolas de samba da cidade, como a Trevo de Ouro, a Academia de Samba Praiana, a Imperatriz Dona Leopoldina, a Império da Zona Norte e a Imperadores do Samba, de 1993 a 1997. Caveira regia a bateria com sua batuta e com suas caretas, que chamavam a atenção dos foliões e espectadores, além de não utilizar o tradicional apito ele dizia ser coisa era “pra jogo de futebol”. Teve também a oportunidade de atuar em um histórico encontro entre a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA, e a bateria da Imperadores do Samba, que tocaram juntas no Theatro São Pedro. Daquele encontro em diante, a bateria ficou conhecida como a “Bateria Sinfônica". Por conta de um AVC, às vésperas do Carnaval de 1998, Mestre Neri Caveira deixou o comando da bateria do Imperadores do Samba e seus sucessores, Sandro Brinco e Sandro Gravador, assumiram a direção da percussão vermelho e branca. Neri, ao lado de Fernando do Ó e De Santana, gravaram o disco “Os Três Percussionistas”, em 1997, e foram reconhecidos com o Prêmio Açorianos de Música, na categoria Instrumentista de Percussão. Uma das paixões do Caveira era a música nativista gaúcha, que ele também chegou a tocar e gravar, fazendo shows com Renato Borghetti, Neto Fagundes, Loma e Nelson Coelho de Castro. Nelson, inclusive, gravou uma música em sua homenagem chamada “Mestre Neri”, no álbum Da pessoa , de 2001. Na cidade de Santo Antônio da Patrulha ocorre anualmente o festival da Moenda da Canção e o prêmio de melhor percussionista leva o nome de Neri Caveira. O mestre morreu em 2004 com diagnóstico de falência múltipla dos órgãos, mas deixou um legado de memória como referência da presença negra no samba e na musicalidade porto-alegrense. Referências Bibliográficas: BATISTA, Fernando. Nery Caveira, o mestre dos mestres. < https://armazemdoseubrasil.blogspot.com/2021/04/nery-caveira-o-mestre-dos-mestres-por.html > Acesso em: 07 de Março de 2025. Personagens da Folia - Mestre Neri Caveira < https://www.youtube.com/watch?v=uqNOCeIKD30 > Acesso em: 07 de Março de 2025. Pesquisa de imagem Leandro Machado Imagem do Facebook - Página Oxóssi do RS https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1016100810450215 Imagem do Facebook - Perfil particular https://www.facebook.com/photo/?fbid=426148745638430 Imagem do Facebook - Página O Dibre https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2363755083990573 Imagem do Facebook - Página Sindisprev RS https://www.facebook.com/photo.php?fbid=633235992858674 Imagem do Facebook - Página Acervos BIEV https://www.facebook.com/photo/?fbid=926353639431985
- MESTRE BOREL
Walter Calixto Ferreira (1909 – 2011), nascido na cidade de Rio Grande em 07 de junho de 1924, filho de Sanches Romano Ferreira (Belém do Pará) e Guiomar Eulalia Calixto Ferreira (1886 – 1964), e neto de ventre da africana Magáli Yála (Magaliyala, mãe Domingas), senegalesa que falava yorùbá e que teria vindo como escrava homiziada para a Fazenda da família Mirapalheta Calixto, em Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul. Borel nasceu no Hospital Maternidade Rio Grande, onde permaneceu até completar 1 ano e seis meses. Aos 4 anos, foi segurado na bacia religiosa da avó para seu Orishá de Ory (cabeça): Shàngó. Em seguida, seus pais foram para Porto Alegre, morar no Areal da Baronesa, importante território negro e quilombola. Foi casado com Maria Euzébia, sua primeira esposa, e posteriormente com Leda Melo, sua segunda esposa e mãe de Pingo do Borel. A família reconhece oficialmente essas duas uniões. Há relatos sobre uma terceira companheira, porém, segundo informações da família, tratou-se de uma relação passageira da qual não se tem registros ou detalhes. Foi interno na Escola Pinheiro Machado, Instituto de Agronomia, onde permaneceu até 1939; depois, cursou o 2º ano ginasial na Escola Lassalista Dom João Becker, no Pão dos Pobres. Ele é conhecido como Mestre Borel, cujo pseudônimo teria relação com o Morro do Borel, no Rio de Janeiro, onde viveu. Atuou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com Mercedes Batista, sob a perspectiva do Folclore Negro. Foi Pai de Santo do Batuque Nação Ijexá Oyó ao longo do século XX. Considerado africanólogo e pesquisador da cultura afro-brasileira, vivenciou profundamente o Candomblé baiano (Gantois) e a Macumba carioca, onde frequentou aulas de língua yorùbá com o Prof. José Ribeiro, especialista em línguas sudanesas e bantos. Atuou no mundo do trabalho como marítimo na marinha mercante. Em Porto Alegre, frequentou escola de ballet clássico e balé folclórico dirigida pelo Prof. Sovarino, na rua da República. Em 1940, teve contato com o poeta negro Solano Trindade, que pretendia difundir o frevo e o maracatu pernambucano em Porto Alegre, realizando peças no Theatro São Pedro e apresentações na Adega Espanhola. Foi criador do Teatro Experimental do Negro em Porto Alegre, entre 1957 e 1959, onde exerceu o cargo de vice-presidente, sendo também diretor artístico, iluminador e ator de teatro, com destaque para os espetáculos Ritmos Bárbaros e Terreiro de Macumba . Participou do Teatro Brasiliana, organizado por Haroldo Costa, em Porto Alegre. É autor de peças teatrais como A Lenda do Diabo Branco . Foi também integrante de inúmeras entidades de tribos, blocos e agremiações carnavalescas, como os Tupinambás, os Caetés, os Divertidos e Atravessados, além do Aratimbó, da Fidalgos e Aristocratas, da Praiana e do Estado Maior da Restinga. Foi iniciado com Waldemar Antônio dos Santos (Waldemar Camucá / Tiemar do Shàngó), em 1930, aos seis anos, quando fez seu primeiro Ebóory (Bori de Cabeça). Aos onze anos, sua mãe o levou à casa de Mãe Andreza Ferreira da Silva (Andreza da Oxum Pandá), da vertente Oyó-Idjeshá, na Colônia Africana, onde, em 1935, aos 15 anos, assentou seus orixás e realizou seu Bori (Oberó-Obory), permanecendo até 1951. Após o falecimento de Mãe Andreza, prosseguiu seus conhecimentos com a Iyá-Mí Eledá, Rita Garibaldi (Ritinha do Shàngó), considerada sua mãe de santo no batuque, de quem recebeu o Axé de Búzios. Iniciou como tamboreiro aos sete anos com Queza, completando seu aprendizado com Pedro da Yemanjá e Tureba do Ogum. Quando Joãozinho da Goméia esteve na casa de Luís do Bará em Porto Alegre, era Borel quem tirava os Axés (cânticos). Mestre Borel foi considerado o Ogã Alagbê e Ogã Nilu mais velho do estado. Era uma figura pública reconhecida como griot, ancião, espécie de ancestral vivo, quase um orixá. Foi afiliado à Afrobrás, em 27 de abril de 1980, como Babalorixá. Produção musical: CD Shirê de Oyó e Ijeshá – por Mestre Borel do Shàngó, Volumes 01 e 02, Atabaques Records. Prêmios e reconhecimentos: Prêmio Comenda João Cândido Felisberto, III Semana da Consciência Negra, GHC – Grupo Hospitalar Conceição, 28 de novembro de 2005, Porto Alegre, RS; Troféu Zumbi, por Honra ao Mérito, Associação Satélite-Prontidão, 19 de novembro de 1997, Porto Alegre, RS; Troféu Deputado Carlos Santos, Semana da Consciência Negra e Ação Antirracista na Câmara Municipal de Porto Alegre, Mestre Borel – Walter Calixto Ferreira In Memoriam , junho de 2024; Prêmio Quilombo dos Palmares, modalidade Atuação na Área Afro-Religiosa, nos termos da Resolução nº 1413, de 09 de junho de 1999, em 19 de novembro de 2004, Câmara Municipal de Porto Alegre, RS. Bibliografia: CALIXTO, Walter Ferreira. Agô-iê, vamos falar de Orishás? Walter Calixto Ferreira (Borel), Edições Renascença, Porto Alegre, 1997; BRAGA, Reginaldo Gil. Tamboreiros de Nação, Música e Modernidade Religiosa no Extremo Sul do Brasil , Série Estudos Musicais, PPGMUS, UFRGS Editora, Porto Alegre, 2013; MARQUES, Olavo Ramalho. Sobre raízes e redes: territorialidades negras no sul do Brasil , Editora da UFRGS, Porto Alegre, RS. Produção Audiovisual: O Mestre Borel: a ancestralidade negra em Porto Alegre . Direção: Analise Gutterres. Produção: Ocuspocus Imagens, Porto Alegre, 2010. DVD. CD Segredos do Sul , Coleção Itaú Cultural, Volume 03, nº 69, Documentos Sonoros Brasileiros, Acervo Cachuera, SP, 2001. Audiovisual A Tradição do Bará do Mercado: os caminhos invisíveis do negro em Porto Alegre , Secretaria Municipal de Cultura, Cedrab-RS, Porto Alegre, 2007. DVD. Axés Cantados , Atabaque’s Records, Porto Alegre. CD. S/Data. Pesquisa de imagem Leandro Machado e Yosvaldir Bittencourt Facebook – Ancestralidade Link: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1033155711504342&set=pb.100044297690602.-2207520000&type=3 🗓️ Publicação: 22 de junho de 2024👤 Página: Ancestralidade Sindisprev RS Link: https://sindisprevrs.org.br/para-construir-a-transformacao-eu-preciso-saber-exatamente-onde-estao-as-rupturas-da-minha-cultura-entrevista-com-pingo-borel-e-sandra-soares 👤 Entrevista com Pingo Borel e Sandra Soares📍 Publicado por: Sindicato dos Trabalhadores Federais da Saúde, Trabalho e Previdência no RS O Explorador Link: https://oexplorador.com.br/mestre-borel-um-dos-principais-representantes-das-religioes-afrobrasileiras-e-cultura-negra-no-rs 👤 Artigo sobre Mestre Borel📰 Site: O Explorador Acervos BIEV Link: https://acervosbiev.com/memorial-biev/mestre-borel-a-ancestralidade-negra-em-porto-alegre 🎥 Documento/Vídeo: “Mestre Borel, a ancestralidade negra em Porto Alegre”📅 Publicado em: 16 de agosto de 2023✍️ Por: Alexandre Magalhães da Silva Observatório da Discriminação Racial no Futebol Link: https://observatorioracialfutebol.com.br/ 📘 Conteúdo sobre racismo e ancestralidade no futebol brasileiro Alma Preta Jornalismo Link: https://almapreta.com/ 📰 Jornalismo negro com foco em direitos humanos, cultura e política Museu da Pelada Link: https://www.museudapelada.com/ ⚽ Site dedicado à memória afetiva e cultural do futebol brasileiro Ludopédio Link: https://www.ludopedio.com.br/ 📚 Produção acadêmica e crítica sobre futebol e sociedade Afrografiteiras – Feira Preta Link: https://feirapreta.com.br/afrografiteiras/ 🎨 Projeto de arte urbana com protagonismo de mulheres negras Museu Virtual do Esporte – UFRGS Link: https://www.espmuseu.ufrgs.br/ 🏛️ Acervo digital sobre história e memória do esporte no Brasil Noite dos Tambores Silenciosos – Prefeitura de Olinda/PE Link: https://www.olinda.pe.gov.br/ 🥁 Evento tradicional das religiões de matriz africana no Carnaval Acervo Cultne Link: https://acervo.cultne.tv/ 🎥 Maior acervo audiovisual da cultura negra da América Latina Museu da Pessoa Link: https://www.museudapessoa.org/ 🗣️ Plataforma colaborativa de histórias de vida Geledés – Instituto da Mulher Negra Link: https://www.geledes.org.br/ 👩🏽🦱 Atuação em direitos humanos, raça e gênero
- Liga da Canela Preta
A denominação Liga da Canela Preta provém de uma adjetivação pejorativa das ligas de futebol criadas e organizadas por grupos de pessoas majoritariamente negras, jogadores e apreciadores do futebol, em Porto Alegre, entre as décadas de 1910 e 1920. Entre 1913 e 1915, surgiu uma agremiação denominada Liga Sul-Americana que agregou algumas das equipes do segmento negro da cidade. Participaram desta Liga o S.C. Rio-Grandense, o S. C. 8 de Setembro, o S.C. Amanuense, o S. C. Primavera e o S.C. União. Na segunda metade desta mesma década, marcada pela Primeira Guerra Mundial, pelo acontecimento da primeira Greve Geral no Brasil e ainda pela infelicidade da Gripe Espanhola, bastante em razão destes acontecimentos, inúmeras atividades e organizações deixaram de existir, ou tiveram suas denominações alteradas ou ainda fundiram-se com outras entidades. Já na década seguinte, nos anos 1920, surgiram três novas associações que congregaram os times negros. Foram elas, a Liga Nacional de Foot-Ball Porto Alegrense, em 1920; a Associação Sportiva de Foot-Ball, em 1921; e a Associação de Amadores de Foot-ball, em 1923. Logo esse conjunto de Associações foi denominado “grosseiramente” de Liga da Canela Preta, segundo Genésio Martins, ex-jogador e diretor da Liga na década de 20, ao relatar alguns detalhes da época ao Jornal do Inter. Existiram também outras duas ligas na cidade: a chamada Liga do Sabonete, dos times da elite branca, e a Liga do Sabão, das equipes de classe média. Os clubes e as Ligas contavam com diretorias eleitas, calendários das assembleias, das filiações, das inscrições e das partidas. Esses registros são encontrados em jornais da época, como no Correio do Povo (os mais antigos com data de 1895), no jornal A Federação (que existiu entre 1884-1937) e em O Exemplo (jornal identificado com a comunidade negra e que circulou entre 1892-1930). A Liga Nacional de Foot-Ball Porto Alegrense foi a que mais agregou os clubes da comunidade negra. O S.C. União, o S. C. Rio-Grandense, o S. C. Palmeira, o S. C. 1º de Novembro, o S. C. Bento Gonçalves, o S. C. Venezianos, o S. C. 8 de Setembro e o S. C. Primavera. Um dos torneios da liga teve início na data de 13 de maio de 1920, no campo da Rua Arlindo, na Ilhota, com a presença da comunidade negra habitante da região formada pela Cidade Baixa, Ilhota e Areal da Baronesa. A data de 13 de Maio inaugurou o calendário esportivo da comunidade naquele ano e era entendida como um marco de memória, para que não houvesse esquecimento do passado, mas principalmente para apontar um novo horizonte na trajetória das gerações oriundas do cativeiro. Deste modo, tendo em conta a simbologia aplicada à escolha da data de início dos jogos, é possível afirmar que as ligas de futebol foram também espaços políticos de afirmação racial, elevação da auto-estima e de protagonismo organizativo da população negra. Assim como Porto Alegre, outras cidades no interior do estado também tiveram ligas ou associações de futebol formadas por e para pessoas negras. Na cidade de Bagé, a Liga 13 de Maio, muito provavelmente a mais antiga, teve sua fundação em 1913. A Liga José do Patrocínio, em Pelotas, foi fundada em 10 de Junho de 1919. As cidades de Rio Grande, Santa Maria e Cachoeira do Sul também tiveram ligas futebolísticas, assim como a região metropolitana de Porto Alegre. Alguns times de futebol não ficaram restritos às suas praças esportivas, mas cruzaram as malhas ferroviárias nos trens a vapor e/ou navegaram pelas embarcações pelos rios do estado para a disputa de amistosos em diversos cantos do Rio Grande do Sul. Na história do futebol - modalidade agregadora e que também acaba gerando muitas disputas simbólicas - casos de discriminação e preconceito também se fizeram e se fazem presentes até na atualidade. Vê-se pela história das ligas que negros, brancos, homens, mulheres e indígenas praticaram desde o seu aparecimento no estado e em Porto Alegre, resultando em movimentos e organizações que contribuiram para driblar a exclusão social, o preconceito e a discriminação. Especialmente homens e mulheres negras organizaram-se diante de uma sociedade excludente, constituíram suas agremiações, calçaram as chuteiras e demonstraram que homens “de cor” também tinham direito aos momentos de lazer e sociabilidade. Conclui-se que as ligas populares tiveram uma atuação política relevante para afirmação dos direitos, atuando politicamente e reivindicando cidadania, jogando o “foot-ball” Essa pesquisa tomou como referência as seguintes fontes: DORNELES, Maurício. Tem tomado sério desenvolvimento entre nós o jogo de futebol: As Ligas e Associações negras de futebol em Porto Alegre no pós-abolição (1920-1923) . 2018. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018. MASCARENHAS, Gilmar. O futebol da canela preta: o negro e a modernidade em Porto Alegre. Anos 90, v. 7, n. 11, p. 144-152, 1999. RODRIGUES, Diego Lemos. Dos campos às páginas: A participação negra na construção do futebol em Porto Alegre no pós-abolição (1907-1921) . 54 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2022. SANTOS, José Antônio dos. Liga da Canela Preta: a história do negro no futebol . Diadorim Editora, 2018. Pesquisa de imagem Leandro Machado: Imagem do Facebook - Grupo Canela Preta https://www.facebook.com/groups/593816264037307 Imagem do El País - Esportes https:// brasil.elpais.com/brasil/2019/11/22/deportes/1574455123_874259.html Imagem do Facebook - Reunião na Secretaria da Cultura de Canoas https://www.facebook.com/photo?fbid=2396642527028895&set=gm.1952521581667948 Imagem do Observatório da Discriminação Racial no Futebol https://observatorioracialfutebol.com.br/wp-content/uploads/2017/04/liga.jpeg Imagem do Instagram - Perfil @o_dibre sobre a Liga da Canela Preta https://www.instagram.com/p/DCm4_6QyDjT/ Imagem da Amazon - Livro "Liga da Canela Preta" de José Antônio dos Santos https://www.amazon.com.br/Liga-Canela-Preta-Antônio-Santos/dp/8593170087 Imagem do Blogspot - Liga da Canela Preta / Evento Quizumba V http://ligadacanelapreta.blogspot.com/2007/11/ Imagem do blog - sobre a Liga da Canela Preta https://ligadacanelapreta.blogspot.com/search?updated-max=2007-11-04T12:25:00-08:00&max-results=7 Imagem do blog - 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