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O PROJETO MEMÓRIAS NEGRAS EM VERBETES – Inventário Participativo de Referências Espaciais, Sociais e Simbólicas realiza um levantamento visando o resgate e desapagamento da presença das populações negras na história de Porto Alegre.

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Verbetes

Atualizado: 14 de out de 2024



A Rua dos Pretos Forros pode ser considerada uma das primeiras ruas do Areal da Baronesa. Limite sul deste antigo território negro, essa via compreendia parte da atual Av. Ipiranga, mais precisamente o trecho entre a Av. Praia de Belas (limite oeste da cidade à época) e a Rua 13 de Maio (atual Av. Getúlio Vargas). Já na década de 1870, quando a região do Areal ainda era uma zona de chácaras, tem-se registros de moradores negros na Rua dos Pretos Forros, embora seu traçado apareça pela primeira vez em um mapa apenas em 1881. Em documentação levantada pela pesquisadora Jane Mattos (2000, p. 47), Rafael, homem pardo, de ofício carpinteiro, cita no ano de 1874, a Rua dos Pretos Forros como seu local de moradia, demarcando a existência da via já nessa época. Imortalizada em poema de Athos Damasceno (1944), a Rua dos Pretos Forros aparece relacionada à liberdade e a manifestações religiosas e culturais negras, como o batuque e o quicumbe e seus instrumentos: xequerês e agogôs.

O fato de o termo “forro” designar aqueles que haviam conquistado a alforria (liberdade) dá indícios de seus moradores: pessoas negras libertas (ROSA, 2019, p. 92). No Mapa de 1888, a via já aparece nomeada como Rua 28 de Setembro, data da Lei do Ventre Livre. Instituída em 1871, a lei passou a declarar livre todo filho de mulher escravizada nascida a partir daquela data. Esse é um dos raros casos em que a mudança de nomenclatura não apaga o marcador negro; pois altera o nome, mas mantém o sentido de liberdade.


Nesse mesmo mapa documento, a Rua 28 de Setembro aparece repleta de construções, sendo a única via, das poucas da área, amplamente ocupada. Em 1892, a Estatística Predial registra a existência de 46 casas térreas, dois sobrados e assobradados (FRANCO, 2006, p. 425), confirmando a elevada densidade populacional apontada pelo Mapa de 1888.

Em 1888, simbolicamente ano da abolição da escravidão, o Areal da Baronesa, ainda sem ruas abertas, tem como seus limites nomenclaturas referentes a dois marcos da emancipação negra: ao sul, Rua 28 de Setembro e à leste, Rua 13 de Maio (data da abolição da escravidão). Por seu significado histórico, essas são consideradas toponímias (nome do lugar) da emancipação negra (VIEIRA, 2020). Nas décadas de 1930/1940 essas vias foram renomeadas para Av. Ipiranga e Av. Getúlio Vargas, perdendo seu sentido relacionado à população negra.

A data de 28 de setembro tornou-se amplamente comemorada pela população negra da cidade devido à tamanha importância da Lei do Ventre Livre para esse grupo. Entre o final do século XIX e o início do século XX, a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora promove grandes festejos para celebrar a “gloriosa data”. Nessa virada de século, o 28 de setembro é destaque também nas páginas do jornal O Exemplo, periódico negro que tece saudações a esse marco histórico, assim como críticas.

Referências

FERREIRA, Athos Damasceno. Poemas da minha cidade. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1944.

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 4. ed. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2006.

MATTOS, Jane Rocha de. Que arraial que nada, aquilo lá é um areal: o Areal da Baronesa: imaginário e história (1879-1921). 2000. 158 f. Dissertação (Mestrado em História do Brasil) – Programa de Pós-graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.


ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Além da invisibilidade: história social do racismo em Porto Alegre durante o pós-abolição. Porto Alegre: EST Edições, 2019.

VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre: toponímia da emancipação negra no Mapa de 1888. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 12, n. 34, p. 182-208, nov. 2020. ISSN 2177-2770. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/index.php/site/article/view/1136. Acesso em: 14 dez. 2022.


VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Belo Horizonte: ANPUR, 2021. Disponível em: https://anpur.org.br/territorios-negros-em-porto-alegre-rs-1800-1970. Acesso em: 14 dez. 2022.


 
 
 

Atualizado: 14 de out de 2024

Figura 1: Mapa das Territorialidades Negras em Porto Alegre/RS - Meados séc. XIX = Elaboração Daniele Machado Vieira.

Fonte: Cartografia Virtual Histórica Urbana de Porto Alegre

Figura 2: Campos da Redenção – década de 1900

Fonte: Iova (atribuído). Acervo Fototeca Sioma Breitman – Museu Joaquim José Felizardo



Durante quase todo os 1800, os Campos da Redenção eram uma antiga e grande várzea, uma grande área descampada, baixa e alagadiça, potreiro e caminho de passagem para Viamão. Localizada fora da cidade, mas contígua a ela, foi local de batuques durante todo o século XIX.


Coruja, o primeiro cronista da cidade, relata a existência do Candombe da Mãe Rita na década de 1830. “O Candombe da Mãe Rita era na Várzea […] mais ou menos no terreno então baldio e depois ocupado pelas casas do Firmo e Olaria do Juca...” (CORUJA, 1983, p. 26-27). Tal localização refere-se a atual rua Avaí e adjacências, em frente ao prédio da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De acordo com o autor, “aí se reuniam nos domingos à tarde pretos de diversas nações, que com seus tambores, canzás, urucungus e marimbas, cantavam e dançavam...” (CORUJA, 1983, p. 26-27). É possível que o local tenha durado como lugar de batuques por bastante tempo, pois Achylles Porto Alegre, outro importante cronista da cidade, ao referir-se ao logradouro, relata que “tais terrenos, antes do arruamento e quando de todo abertos, serviam para a realização de festejos negros africanos, que ali realizavam seus ruidosos candomblés” (1994, p. 16).

Na década de 1850, Maria José, mulher negra, liberta, apresentando-se como rainha ginga da Irmandade do Rosário, solicita às autoridades policiais licença para os negros realizarem seus festejos na área central (DIAS, 2008, p. 30). Após reiteradas solicitações, Maria José finalmente obtém autorização, a qual indica a Várzea como lugar para os batuques, “por ser fora do Centro da cidade” (DIAS, 2008, p. 33).

No final do século ainda vão existir batuques na área, como os realizados em frente à Capelinha do Bom Fim. Achylles refere-se a esse batuque “ao ar livre” como “um dos mais populares,” acrescentando que “muita gente se abalava da cidade [o Centro] para ir ver a dança dos negros” (1994, p. 101). Note-se que esse batuque localizava-se ao lado da atual av. Osvaldo Aranha, na face oposta ao Candombe da Mãe Rita (localizado para nas imediações da atual av. João Pessoa), evidenciando a existência de festejos negros em diferentes pontos da antiga Várzea, assim como sua continuidade ao longo de todo o século dezoito.


Em 1884, a Várzea ganha o nome oficial de Campos da Redenção, como forma de comemorar a libertação dos escravizados da cidade. Realizada em “Sessão Extraordinária comemorativa da redempção dos escravos do município de Porto Alegre,” ocorrida em 7 de setembro de 1884, na Câmara Municipal, a alteração teve o seguinte texto:


O sr presidente declarando que convocara a Câmara para comemorar a libertação dos escravos na cidade de Porto Alegre e seu município, propõe, para solenizar de uma maneira perdurável o fato grandioso e patriótico, que o Campo do Bom Fim passe a denominar-se “Campo da Redempção”. É unanimemente aprovada esta proposta (CÂMARA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE, 1884, p. 2).

Embora tenha sua contribuição para a libertação, essa não foi uma grande abolição, visto que já havia um significativo contingente de libertos e que ainda restaram escravizados após 1884, conforme evidenciam, por exemplo, as pesquisas de Paulo Moreira (2003, p. 173, 180). É importante considerar que os negros: a) pagaram por cerca de 40% das suas cartas de alforrias (MOREIRA, 2003, p. 258), libertando a si e sua família; e b) que a área da Várzea já era um local de batuques, de congregação religiosa e social do grupo negro ao longo de décadas, sendo justo que fosse marcada por essa presença com sua nova denominação de Campos da Redenção, a qual permanece até hoje, quase um século e meio após.


Referências


CÂMARA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Ata da Sessão Extraordinária

comemorativa da redempção dos escravos do município de Porto Alegre,

realizada no dia 07/09/1884. Livro de Ouro, Porto Alegre, p. 2-3, 1884.


CORUJA, Antônio Alvares Pereira. Antigualhas: reminiscências de Porto Alegre.

Porto Alegre: Cia União de Seguros Gerais, 1983 [1881].

DIAS, Glauco Marcelo Aguilar. Batuques de negros forros em Porto Alegre:

um estudo sobre as práticas religiosas de origem africana na década de 1850. 2008.

69 f. Trabalho de Conclusão (Graduação em História) – Departamento de

História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do

Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.

MOREIRA, Paulo Roberto Staudt. Os cativos e os homens de bem: experiências negras no espaço urbano, Porto Alegre 1858-1888. Porto Alegre: EST Edições, 2003.


PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Porto Alegre:

PMPA: Unidade Editorial, 1994.


VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre: toponímia da emancipação negra no Mapa de 1888. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 12, n. 34, p. 182-208, nov. 2020. ISSN 2177-2770. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/index.php/site/article/view/1136. Acesso em: 14 dez. 2022.


VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Belo Horizonte: ANPUR, 2021. Disponível em: https://anpur.org.br/territorios-negros-em-porto-alegre-rs-1800-1970. Acesso em: 14 dez. 2022.


 
 
 

Atualizado: 14 de out de 2024


Figura 1: Mapa Ilhota, Porto Alegre/RS – 1916

Fonte: Elaboração de Daniele Machado Vieira sobre Mapa de Porto Alegre/RS 1916 (IHGRGS, 2005)


Figura 2: Ponte sobre o Arroio Dilúvio com a Ilhota ao fundo

Fonte: Acervo Fototeca Sioma Breitman – Museu Joaquim José Felizardo


Circundada pelo Arroio Dilúvio, a Ilhota era uma pequena porção de terra existente na parte sul do bairro Cidade Baixa, mais especificamente, onde hoje estão o Ginásio Tesourinha, o Centro Municipal de Cultura e a atual Vila Lupicínio Rodrigues. Contígua ao Areal da Baronesa, a Ilhota tinha como limites, em sua configuração inicial, as antigas rua 13 de Maio (atual av. Getúlio Vargas) e rua Arlindo (atual av. Érico Veríssimo), a oeste e a leste; a Praça Garibaldi ao norte e a rua 17 de Junho (antiga Rua dos Coqueiros) ao sul (SANTOS, 2010, p. 36).


A configuração da área da Ilhota, sua origem e desmantelamento, está relacionada ao Arroio Dilúvio, um dos principais cursos d'água da cidade. A origem da Ilhota remonta ao ano de 1905 (FRANCO, 2006, p. 208), quando duas pontas do meandro (grande curva) do mesmo (situado ao sul da Praça Garibaldi) se uniam, formando uma pequena ilha em seu interior, chamada de Ilhota. Ainda não canalizado, o Arroio Dilúvio cruzava a cidade no sentido leste-oeste, adentrando a Cidade Baixa, para então desaguar no Guaíba, passando através da Ponte de Pedra. Logo após a Ponte da Azenha, o Dilúvio formava essa grande volta e seu curso seguia paralelo à atual rua João Alfredo (rua da Margem, à época, por ser a margem do Riachinho) até chegar à ponte antiga do atual Largo dos Açorianos.

Embora fechada em 1905, no Mapa de 1906 a Ilhota ainda aparece com o meandro aberto - somente uma década depois, no Mapa de 1916 é que a vila será apresentada com a configuração que a consagrou: uma ilha dentro da cidade. A rua Ilhota e a travessa Batista, futuras vias, já estavam traçadas. Para se ter uma ideia do crescimento do local e da quantidade de famílias residentes na área, no ano de 1946 foram catalogadas 77 construções, 62 prédios na rua Ilhota e 15 na travessa Batista, conforme levantado por Franco (2006, p. 208), a partir do Decreto Municipal n.º 333.

Zona empobrecida, habitada por uma população majoritariamente negra, a Ilhota ficou imortalizada nas crônicas de carnaval e batuque, na memória e nos sambas saudosistas da cidade como zona boêmia, berço do samba, sendo lembrada especialmente por Lupicínio Rodrigues (1914-1974), seu ilustre morador. Nascido na Ilhota, com família residente na travessa Batista, Lupi, como era carinhosamente chamado, foi cantor e compositor, que com seus sambas conquistou projeção nacional. Muitos carnavais tiveram sua construção na área e entorno, como os blocos que saíam da Praça Garibaldi, contígua à Ilhota, e tinham como participantes ou organizadores foliões da mesma (GERMANO, 1999).


Em suas lembranças dona Isaura, moradora na década de 1940, rememora o local: “a Ilhota que eu conheci era um corredor de casas, ou seja, uma casa do lado da outra. A mais bonita pertencia à família do Lupicínio Rodrigues” (SANTOS, 2010. pp. 36-37). Mestre Borel (2010), antigo e renomado alabê (tamboreiro) da cidade, importante figura das religiões de matriz africana, em suas lembranças, reconstrói mais um pouco da paisagem da área, lembrando dos pontilhões (pontes) de madeira (sobre o Arroio Dilúvio) que faziam a ligação da Ilhota com o entorno. Em sua fala ele também relembra os antigos batuqueiros da região, junto com o Areal da Baronesa, rua Cabo Rocha, estendendo-se para a região do bairro Santana.

Assim como vários outros núcleos de família de baixa renda, a Ilhota era composta por gente simples, com ofícios relacionados ao trabalho doméstico e à prestação de serviços, como lavadeiras, cozinheiras etc. A solidariedade entre a vizinhança é uma marca ressaltada nas lembranças:

A gente se ajudava mutuamente, principalmente as mulheres. Cuidávamos dos lavados enquanto uma ou outra lavadeira saía para fazer as entregas ou busca de roupas. Controlávamos as crianças para que não ficassem soltas na rua e por vezes cedíamos alimentos para aquelas famílias que se apertavam por falta de dinheiro, principalmente no final do mês (SANTOS, 2010, p. 45).


Zona que sofria com as constantes cheias do Arroio Dilúvio, a Ilhota tem seu desaparecimento relacionado à canalização do Riachinho, nome dado ao Dilúvio na região da Cidade Baixa. Após a grande enchente de 1941, o Arroio Dilúvio começou a ser canalizado, tendo o trecho final de seu curso retificado para que passasse a correr retilíneo até a av. Praia de Belas, limite junto ao rio na cidade da época, antes do aterramento. A obra faz desaparecer os braços do Arroio que circundava a Ilhota, dando fim também às cheias e alagamentos. A Ilhota se expandiu até as proximidades da Rua Lima e Silva. Contígua ao Centro, a área passa a ser alvo do poder público e do mercado imobiliário, provocando uma brutal remoção da população residente no final dos anos 1960. Aqueles que não conseguiram residência em outro local foram removidos e, junto com moradores de outros espaços empobrecidos deram origem ao atual bairro Restinga - à vida na periferia longínqua. Localizada no extremo sul da cidade, distante cerca de 20 quilômetros, em 1968/1969, época da remoção, a área da Restinga não contava com a infraestrutura mínima, como água, luz, escola, para receber famílias e suas moradias, o que não impediu a remoção de diversas famílias para lá.

Referências


BOREL, Mestre (Walter Calixto Ferreira). Mestre Borel: a ancestralidade negra em Porto Alegre. Direção: Anelise Gutterres. Porto Alegre: Ocuspocus Imagens, 2010. 54 min. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ftjdoUEC4b0. Acesso em: 12 out. 2016.

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 4. ed. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2006.

GERMANO, Iris Graciela. Rio Grande do Sul, Brasil e Etiópia: os negros e o carnaval de Porto Alegre nas décadas de 1930 e 40. 1999. 275 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1999.

SANTOS, Irene (coord.) et al. Colonos e Quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s. n.], 2010.


VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Belo Horizonte: ANPUR, 2021. Disponível em: https://anpur.org.br/territorios-negros-em-porto-alegre-rs-1800-1970. Acesso em: 25 jan. 2023.





 
 
 

Nossos objetivos na 2ª edição

Confira as metas da segunda edição do projeto MEMÓRIAS NEGRAS EM VERBETES – Inventário Participativo de Referências Espaciais, Sociais e Simbólicas Projeto realizado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022. 

01

+ 50 Verbetes no site

A segunda edição prevê em suas metas a publicação de mais 50 verbetes, totalizando 100 verbetes no blog até o final desta etapa.

03

Mobilização da comunidade

Mobilizar pessoas representativas e instituições do movimento negro porto-alegrense para debater o projeto.

02

Audiodescrição dos conteúdos do site

Nosso projeto agora terá o recursos de audiodescrição, tornando a pesquisa acessível a mais pessoas.

04

Audiolivro

Montar Audiolivro unindo os episódios do Desapaga POA e do Memórias Negras em Verbetes.

Reportagens

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Verbetes em destaque

O Príncipe Custódio, figura histórica envolta em mistério, faleceu em Porto Alegre em 1935 e nasceu na África no século XIX. Duas narrativas principais disputam sua origem: uma o vincula à realeza do Benin, atribuindo-lhe importância no batuque e no assentamento do Bará do Mercado, enquanto outra o identifica como filho de um comerciante de escravos africano, chegando a Porto Alegre após disputas familiares. Custódio se destacou na cidade tanto por sua participação nas corridas de cavalos quanto por sua liderança religiosa, sendo reconhecido por sua influência nos cultos africanos e por seu papel de mediador entre a população negra e a elite. Seu legado segue relevante para o movimento negro e para as discussões políticas e religiosas no Rio Grande do Sul.

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Príncipe Custódio

Lupicínio Rodrigues, nascido em Porto Alegre em 1914, destacou-se como um dos maiores compositores da música brasileira, conhecido como o mestre da "dor de cotovelo". Desde cedo, transitou pela boemia e pela música, conciliando sua trajetória com uma breve passagem pelo exército e uma vida marcada por empreendedorismo e engajamento social. Suas composições, como Se Acaso Você Chegasse e Nervos de Aço , tornaram-se clássicos, interpretados por grandes nomes da música. Gremista fervoroso, compôs o hino do Grêmio e participou ativamente da cena cultural e política, chegando a disputar uma eleição. Mesmo reconhecidos nacionalmente, episódios de racismo, o que reforçou seu papel na luta pelos direitos da comunidade negra. Faleceu em 1974, deixando um legado imortal na música popular brasileira.

Lupicínio Rodrigues

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Tambor – Museu de Percurso do Negro

O Tambor Amarelo, instalado na Praça Brigadeiro Sampaio em 2010, tornou-se um símbolo da presença e trajetória do negro em Porto Alegre, sendo um marco do Museu de Percurso do Negro. Concebido por um coletivo de artistas e griôs, com base em uma pesquisa antropológica de Iosvaldyr Bittencourt, a obra foi desenvolvida em um processo coletivo inspirado em valores civilizatórios africanos. Além de resgatar a memória negra no antigo Largo da Forca, o tambor representa a diversidade cultural afro-brasileira e denuncia a pouca representatividade da cultura africana nos monumentos da capital gaúcha. Hoje, a escultura fortalece a identidade negra e ressoa com imigrantes africanos e latino-americanos que chegam ao Rio Grande do Sul. O trabalho dos artistas e griôs envolvidos reforça a importância da arte coletiva e da ancestralidade na construção da memória urbana. Mais do que um monumento, o Tambor Amarelo é um convite ao reconhecimento e à valorização da história negra na cidade.

Pelópidas Thebano Ondemar Parente (1934-2022) foi um renomado artista plástico, desenhista e figurinista de Porto Alegre, destacando-se na arte afrocentrada e no carnaval da cidade. Servidor público por décadas, contribuiu com projetos arquitetônicos e participou da concepção do Aeromóvel. Suas obras abordam a diáspora africana e a identidade negra, refletindo sobre a influência cultural afro-brasileira. Foi um dos idealizadores da Frente Negra de Arte e autor de marcos visuais do Museu de Percurso do Negro, como o Tambor Amarelo. Seu legado é reconhecido em diversas exposições e premiações, consolidando-o como uma referência na arte negra no Rio Grande do Sul.

Pelópidas Thebano

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Wilson Tibério (1916-2005), conhecido como Tibério, foi um artista afro-brasileiro engajado no debate antirracista e colonialista do século XX. Natural de Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Nacional de Belas Artes, destacando-se por sua arte voltada à vivência da população negra. Em 1947, emigrou para a França, viajando por diversos países e se aproximando do movimento Négritude. Sua produção artística denunciava o colonialismo e exaltava a diáspora africana, com obras que hoje integram acervos como a Pinacoteca Ruben Berta, a UFRGS e o Museu Afro Brasil.

Wilson Tibério

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A Ilhota era uma pequena porção de terra na Cidade Baixa, Porto Alegre, formada pelo meandro do Arroio Dilúvio e delimitada pelas atuais avenidas Getúlio Vargas e Érico Veríssimo. Surgida em 1905, tornou-se um núcleo habitado por uma população majoritariamente negra e de baixa renda, conhecida por sua forte tradição boêmia e carnavalesca, sendo berço do samba e lar de Lupicínio Rodrigues. Com a canalização do Arroio Dilúvio após a enchente de 1941, a área foi alvo de interesse imobiliário e sofreu uma brutal remoção populacional no final da década de 1960, deslocando muitos moradores para a Restinga, então uma periferia sem infraestrutura adequada.

Ilhota

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Durante o século XIX, os Campos da Redenção, inicialmente uma grande várzea alagadiça fora da cidade de Porto Alegre, foram um importante local para celebrações culturais e religiosas da população negra, como o Candombe da Mãe Rita e outros batuques, realizados com tambores e danças. Esses festejos, mencionados por cronistas da cidade, ocorreram especialmente na área ao redor da atual rua Avaí e nas proximidades da Capelinha do Bom Fim. Em 1884, a Várzea foi oficialmente renomeada para Campos da Redenção para comemorar a libertação dos escravizados em Porto Alegre, embora a abolição tenha sido limitada e parcial, com muitos negros ainda vivendo como libertos ou escravizados. A nova denominação refletia o legado da resistência e presença cultural dos negros na cidade.

Campos da Redenção

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Dario de Bittencourt, nascido em 1901, foi um importante advogado, educador e ativista negro, com uma trajetória marcada pela luta contra o preconceito racial e pela valorização das tradições culturais negras. Criado por seu avô após a morte do pai, Dario teve uma educação privilegiada, estudando em instituições renomadas e se graduando em Direito pela Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre. Ao longo de sua vida, foi membro ativo de diversas organizações negras, como a Sociedade Beneficente Floresta Aurora e o Grêmio Náutico Marcílio Dias, e participou ativamente do jornal O Exemplo, que combatia o racismo. Além disso, Dario se envolveu com religiões de matriz africana, defendendo a aceitação do Candomblé como religião legítima. Em sua carreira acadêmica, foi professor catedrático de Direito Internacional Privado na Universidade do Rio Grande do Sul e se aposentou em 1957, mantendo seu compromisso com a luta contra a discriminação racial até sua morte.

Dario de Bittencourt

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Em 2 de julho de 1949, a Folha da Tarde fez um convite aberto aos homens de cor de Porto Alegre para a fundação de um clube náutico, inicialmente chamado José do Patrocínio, mas que recebeu o nome de Marcílio Dias, em homenagem ao intelectual negro. O Clube foi criado com o objetivo de proporcionar aos jovens negros o acesso a esportes como remo e natação, atividades que eram negadas pelos clubes brancos da cidade. Fundado em 4 de julho de 1949, o clube teve como principais articuladores figuras como João Nunes de Oliveira e Armando Hipólito dos Santos. Em 1950, abriu oficialmente sua sede na Avenida Praia de Belas, sendo um ponto de encontro para festas e eventos importantes da comunidade negra local. Na década de 1960, o clube lançou o jornal Ébano, e embora tenha enfrentado dificuldades com sua sede, incluindo a construção de um ginásio destruído por ventos fortes, o clube seguiu promovendo atividades até seu fechamento na década de 1970.

Clube Náutico Marcílio Dias

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A área do atual bairro Mont'Serrat, até meados do século XX e talvez até as décadas de 1980/90, era conhecida como a Bacia do Mont'Serrat, um território predominantemente negro com registros desde o início do século XX. O bairro teve sua origem marcada pela presença de famílias negras, com destaque para a Rua Arthur Rocha, nomeada em homenagem ao dramaturgo negro Arthur Rodrigues da Rocha. A Bacia do Mont'Serrat foi uma área de forte religiosidade, com várias casas de batuque e terreiros de matriz africana, e se tornou um ponto de encontro de trabalho e sociabilidade para as famílias negras da região, com destaque para atividades como a lavagem de roupas e o trabalho de costureiras. Além disso, o bairro foi berço de tradições culturais como blocos de carnaval e piqueniques dominicais. No entanto, com o processo de urbanização e transformação social, o antigo território negro se perdeu, embora ainda resista uma presença negra na região.

Bacia do Mont'Serrat

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